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/ Pensamentos Chineses
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| Mozi
e o Moísmo |
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Por
André Bueno |
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21 de Janeiro de 2004
| Mozi
foi um dos grandes críticos do
Confucionismo, tendo vivido, provavelmente,
em torno do século V - IV a.C.
Uma série de indicações
nos permite supor que Mozi deve ter estudado
os mesmo clássicos que Confúcio,
chegando a conclusões diametralmente
opostas, porém, daquelas apresentadas
pela Escola dos Letrados. Acredita-se
que essa diferença de interpretação
tenha vindo da condição
social de Mozi, muito mais próxima
da plebe do que da fidalguia Zhou (Joppert,
1979: 102-103).
Este autor era um pregador retórico
contundente, como seu texto mostra.Tinha
uma relutância profunda para com
o confucionismo, que considerava uma ideologia
de elite. Mozi era antes de tudo um defensor
das causas populares, e via na estrutura
política da Dinastia Zhou um sistema
corrompido, injusto, criado em torno dos
interesses das classes altas. Sua capacidade
de perceber a realidade, de forma pragmática,
levou-o a conclusão de que o mundo
não precisava de governantes distantes
do povo, já que o mesmo povo é
quem produzia o sustento da sociedade,
e, por conseguinte, a grande estrutura
oficial (administradores, funcionários,
etc) formava apenas um grupo de parasitas
que se alimentavam do esforço alheio.
Desta forma, a única inspiração
correta, para ele, provinha do Céu,
que tratava todos como iguais e não
via distinção na atribuição
de benesses (MO, 4). Sua proposta de amor
universal tornava literalmente iguais
todas as pessoas, sem diferenças
de classe, cor, sexo, raça, etc.,
e por isso, era importante que o povo
se unisse para poder administrar, de forma
independente, sua própria vida
(MO, 15, 16). |
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COLUNISTA
André Bueno
Graduado
em Historia pela UFRJ
Mestre em Historia pela UFF
Doutorando em Filosofia pela UGF
Áreas de estudo: Na graduação
e no mestrado, estudou as relações
comerciais e culturais entre Roma e
China no período dos séculos
I ao III d.C. Atualmente trabalha com
pensamento confucionista na tese de
doutorado, analisando o texto do zhong
yong (o justo meio, o meio invariavel,
etc.).
Leciona também em Universidades
do Rio de Janeiro e realiza ocasionalmente
seminários, cursos e oficinas
sobre temas diversos relacionados a
China. Tem ainda dois livros já
divulgados: "Dez lições
de Cultura Chinesa" e "História
Concisa da China Antiga".
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Poderíamos dizer que Mozi chegava –
de forma análoga, obviamente - bem perto
do ideal marxista-comunista, já que conseguia
compreender que a estrutura sobre a qual a sociedade
funciona estava calcada no trabalho dos populares
(ou talvez, proletariado?). Diante disso, se
as classes baixas soubessem se unir, elas não
mais dependeriam da interferência das
elites para organizar a produção
e a distribuição dos bens comuns,
findando com a desigualdade, a exploração,
e fomentando o surgimento de uma sociedade mais
equânime e justa. Por isso mesmo Mozi
combatia a cultura da elite, e por conseqüência,
aqueles que ele considerava serem a maior expressão
da mesma, os confucionistas (MO, 39), que ao
seu ver defendiam concepções de
pensamento que não permitiriam, ao povo,
enxergar suas potencialidades.
Embora pacifistas, os moístas também
se uniram para defender cidades ameaçadas
por pilhagens, pela bandidagem e por governantes
corruptos, tornando-se eficientes generais na
defesa das causas populares (MO, 17, 18).
Este atraente sistema de pensamento nos possibilita
perceber que Mozi já havia compreendido
a realidade das desigualdades sociais, colocando
o problema da cultura como um dos grandes impedimentos
ideológicos para a construção
da tão procurada harmonia universal (tal
como outros autores já haviam proposto,
igualmente). No entanto, sua crença consistia
em buscar a saída possível para
estes problemas na criação de
um novo sistema, independente das velhas estruturas,
que não mais desse espaço ao surgimento
das hierarquias e à concentração
de poder em mãos individuais. Mozi era
um grande estimulador das estruturas comunitárias,
defendendo a liberdade de seus integrantes na
administração de seus negócios
públicos desde que houvesse, por parte
dos mesmos, um comprometimento constante na
ajuda dos menos favorecidos de outros lugares
(os famintos, os camponeses arruinados por pestes,
secas, os pobres, etc) (MO, 15, 16 e 26).
A proposta de Mozi, porém, não
soube compreender a força das estruturas
mentais na hora em que se processam as mudanças
sociais. A cultura não é um elemento
autônomo que fraciona as classes de forma
independente: ela vincula-se a ação
dos indivíduos, e, grande parte das vezes,
nas classes populares a ideologia se reproduz
de forma intensa, incutindo na mente destes
a impossibilidade de se mudar um regime ou um
sistema. Além disso, a pregação
moísta não reconhecia o valor
desta mesma cultura para processar alterações
no imaginário e na ideologia social.
Assim, a crítica dirigida à sociedade
Zhou é quase uma contradição,
pois desse mesmo contexto que ele, Mozi, surgiu,
e disso derivava sua proposta revolucionária.
Era compreensível sua raiva contra as
estruturas opressoras da época, que lançavam
o povo a miséria; mas talvez ele tenha
exagerado no seu combate contra o sistema cultural.
Sua percepção de que a ideologia
era vinculada pela literatura, pelos rituais
e pela religião era bastante precisa
e perspicaz: mas há que nos perguntarmos
se destruí-la, por completo, asseguraria
a efetividade de um novo sistema. Mozi não
levou em conta a ambição humana.
Mesmo nas comunidades que adotaram suas idéias,
surgiram pessoas que, fosse por fraqueza de
espírito, fosse por pura e simples discordância,
acabaram por efetuar os mesmos processos de
concentração de poder e riqueza
que ele tanto havia combatido.
Mozi depositava no Céu, e na fé,
suas esperanças de modificar a sociedade
(MO, 26, 27 e 28). Poucos foram, porém,
os que puderam continuar dando ensejo à
sua proposta após sua morte. As crenças
moístas nos demonstram que a noção
de igualdade é uma recorrência
comum entre as sociedades oprimidas, principalmente
no seio das classes populares, onde a insatisfação
campeia contra a desigualdade, e que clama por
justiça. Mas o questionamento que fica
é: será que a humanidade estaria
preparada para uma sociedade de amor universal,
igualitária, ou esta seria uma utopia,
já que a tendência natural do ser
seria o individualismo?
Se pensarmos do ponto de vista chinês,
veremos que nada disso seria impossível,
mas dependeria da vinculação de
vários elementos, tais como a mediação
individual, o estudo, a compreensão da
natureza, políticas de compaixão,
etc...Valores presentes em todas as outras escolas
que apresentamos até aqui, mas cada qual
com um entendimento sobre o que isso significaria.
Bibliografia Indicada:
MO = Livro de Mozi (Modi)
CHAN W. T. Sourcebook in Chinese
Philosophy. Princeton: PUP, 1963.
CHENG, A. Historia del pensamiento chino. Madrid:
Bellaterra, 2003.
GRANET, M. O pensamento Chinês. Rio de
Janeiro: Contraponto, 1997.
JOPPERT, R. O Alicerce Cultural da China. Rio
de Janeiro: Avenir, 1979.
MOZI. The ethical and political works of Motse.
London: Probsthain, 1929. trad. Y. P. Mei
MOZI. Mo tzu: Basic writings. Columbia: CUP,
1963. trad. B. Watson.
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