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| Laozi,
o mestre do Caminho |
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Por
André Bueno |
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03 de Janeiro de 2004
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Em
meio ao caos que se instalava no século
VI a.C., a proposta do misterioso mestre
Laozi (contemporâneo de Confúcio)
surgiu com um elemento bastante inovador
nas formas de pensar chinesas: baseando-se
num distanciamento claro das decadentes
instituições políticas
dos Zhou, este sábio defendia,
no seu Daodejing (Tratado da Virtude e
do Caminho) um retorno à natureza
primordial do ser, sendo esta a verdadeira
busca para uma real salvação.
Os tempos ancestrais representavam para
Laozi uma época de paz, de desapego,
que fora obtido graças à
harmonização natural dos
seres com o meio; mas, no intuito de fazer
prevalecer esta paz, apareceram os sábios,
que instituíram leis, promulgaram
regras, e lançaram a desconfiança
entre as pessoas, ensejando os desejos
egoístas de sobrevivência
e acúmulo material. |
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COLUNISTA
André Bueno
Graduado
em Historia pela UFRJ
Mestre em Historia pela UFF
Doutorando em Filosofia pela UGF
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Por causa disso, a sociedade perdeu o Dao (Tao),
o caminho, conceito esse já existente
na mentalidade chinesa, mas que os daoístas
(ou taoístas) iriam buscar desenvolver
ao máximo. O Dao não poderia,
em essência, ser explicado. Parece tratar-se
de uma fórmula de harmonia com a natureza,
onde o ser descobriria sua posição
atuante no ciclo cósmico. Isso exigia
que a pessoa comum, portanto, se desprendesse
das coisas mundanas que a retinham no círculo
vicioso das convenções sociais,
para descobrir, no seu íntimo, o ritmo
das relações existentes entre
seu corpo, seu espírito e a natureza.
Por isso mesmo, a descrição lingüística
do Dao não era possível, para
os daoístas, por se tratar de uma experiência
“transcendente”, desligada das sensações
mundanas que governam os seres comuns. A matéria
e o espírito seriam, na verdade, desdobramentos
de uma única fonte primordial, inominável,
que provinha da entidade geradora do cosmo,
o Vazio (DDJ, 11). O Vazio geraria o princípio
(Li, o um); dele, estabelece-se a dicotomia
complementar fomentadora de todos os fenômenos,
os princípios opostos, o Yin e o Yang.
Da fusão de ambos nasce o Três,
o filho, o manancial das dez mil coisas (expressão
chinesa para o universo) (DDJ, 42). Este fenômeno
da criação das energias seria
o grande ciclo no qual a natureza se encerra
e se reproduz, e para voltar a se integrar nessa
realidade o ser precisaria buscar, dentro de
seu próprio espírito, a noção
de equilíbrio e interação
que se chamaria Dao. Ele não poderia
dispensar a matéria, do qual faz parte:
mas pode tentar apreende-la sem desejo, sem
noção de posse, o que permite
então a livre expressão das propriedades
das coisas (DDJ, 48, 49). Esta isenção
do desejo, que permitiria o livre fluir do conhecimento
é que fomenta o conceito da ação-isenta
(wu wei) (DDJ, 63). Agir é, pois, atuar
tentando conciliar os opostos e, ao mesmo tempo,
empregar a energia adequada ao momento; é
uma ação isenta de um fim específico,
baseada pura e simplesmente na sua execução
e vivência (tal como, num exemplo clássico,
o ato de meditar).
Esta clivagem taoísta é bastante
interessante: quantas vezes não deixamos
de enxergar as coisas, como elas são,
porque nelas projetamos nossas ânsias
e desejos? É exatamente por isso que
Laozi propunha uma aproximação
isenta, sem o que só seríamos
capazes de observar a forma externa das mesmas,
e nelas continuaríamos a sobrepor nossas
concepções próprias de
mundo que não seriam nada mais, nada
menos, do que uma deformação da
realidade proposta pela cultura.
De fato, a cultura aparece aí, para os
daoístas, como um filtro deformador da
realidade natural, uma construção
até necessária para que o homem
pudesse interagir com o meio; mas, a partir
do momento que a mesma se torna um sistema de
domínio sobre a natureza, ela começa
então a se degradar e corromper, pois
passa a ser uma construção irreal
(e ideal) sobre a verdade cósmica. Na
ausência de harmonia entre estes princípios
cósmicos ocorrem, então, os conflitos
entre os países, os povos, as famílias,
cada qual não percebendo a presença
dos atributos universais presentes em suas naturezas
(DDJ, 65).
Mas essa “individualidade natural”
do ser seria de fácil acesso? Na verdade
sim, e não (DDJ, 70). Ela dependeria
do esforço individual de cada um, o que
a torna um caminho tortuoso e complicado, mas
que ao mesmo tempo está aberto diante
de nós, já que fazemos parte desta
natureza e não podemos dela nos separar.
Este seria o Portal do conhecimento, dos mistérios,
presente na entrada do Dao. (DDJ, 1).
Tais concepções conclamavam as
pessoas ao estudo íntimo e a meditação
profunda do papel do ser humano no seu meio.
Laozi foi um tanto hermético nos seus
discursos sobre o resgate da harmonia primordial,
mas ao mesmo tempo foi original e autêntico,
quando propôs que a real liberdade do
ser não poderia ser atingida pela prática
de uma cultura que trazia dentro de si o cerne
da degradação. Toda e qualquer
construção humana que se distanciasse
de uma base natural tenderia a gerar perturbação,
já que ela provocaria o surgimento de
novas ânsias, duvidas, conflitos e perigos
que jogariam os seres uns contra os outros.
A abordagem do Caminho deveria ser feita, com
segurança, através da flexibilidade
do pensamento, da ação contida
e do coração aberto aos movimentos
do mundo.
O primeiro verso do Daodejing nos diz respeito
à necessidade que os seres humanos teriam
de reencontrar sua posição na
natureza cósmica. Seria um engano pensarmos
que somos donos de algo, já que esta
consciência ideológica deriva de
uma noção social, mas ela não
esclarece, em si, o fato de que todos os seres
nascem e morrem e apenas a natureza continua
a existir. Assim sendo, nós pertencemos
à natureza, e não o contrário.
Laozi pensava, com isso, em chamar as pessoas
à construção de uma sociedade
mais harmônica, baseada na compreensão
deste princípio, que nos induz a agir
não de forma selvagem, mas que nos traz
a consciência da transitoriedade das coisas
e que, por isso mesmo, nos força à
rever nossos desejos e angústias como
coisas vãs, numa existência que
não exige nada disso para assegurar nossa
sobrevivência.
A precisão da proposta de Laozi nos faz
pensar, em termos modernos, na questão
da responsabilidade individual sobre o mundo.
Em que medida nós assumimos um exame
íntimo de nossas vidas e não criamos
para elas mais necessidades do que realmente
precisaríamos? A cultura, por muitas
vezes, não nos induz ao excesso desmedido,
criando anseios sobre coisas que seriam totalmente
dispensáveis em nossas vidas, mediante
um exame mais atento? Quando observamos as “comunidades
primitivas”, que durante um bom tempo
conseguiram estabelecer um padrão de
vida bastante significativo, pautado exclusivamente
na harmonia com a natureza e o meio, podemos
realmente assegurar que a evolução
material seria o único caminho de desenvolvimento
possível para a sociedade? E ainda, as
construções tecnológicas,
que se propõe a serem reprodutoras da
vida humana, muitas vezes não ameaçam
o meio ambiente, pondo em perigo, por conseguinte,
a própria existência das sociedades
mundiais? Se assim for, a descoberta dos “mistérios”
que envolvem o caminho não seria, nada
mais, nada menos, a proposta de criação
duma sociedade onde seres conscientes fossem
capazes de assegurar a vida comum através
de uma relação mais equânime
e adaptada à realidade do meio. O caminho,
portanto, seria se deixar conduzir por este
movimento natural e constante, sem conflitos,
sem atritos, sem desperdícios (DDJ, 76,
77). Eis uma mensagem significativa que Zhuang
zi, um dos principais seguidores da linha daoísta
trabalharia, posteriormente, para tornar mais
acessível ao público através
de inúmeras parábolas, que veremos
a seguir.
Bibliografia indicada:
DDJ = Daodejing (Tratado do Caminho e da Virtude,
de Laozi)
BLOFELD, J. Taoísmo.
São Paulo: Cultrix, 1989.
CHENG, A. Historia del pensamiento chino. Madrid:
Bellaterra, 2003.
COOPER, J. O Taoísmo. São Paulo:
Cultrix, 1986.
GRANET, M. O pensamento Chinês. Rio de
Janeiro: Contraponto, 1997.
LAOZI. Daodejing. São Paulo: Hedra, 2002.
trad. M.Sproviero
PALMER, M. Elementos do Taoísmo. Rio
de Janeiro: Ediouro, 1993.
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