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/ Pensamentos Chineses
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| Confúcio,
o Humanista Chinês |
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Por
André Bueno |
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22 de dezembro de 2003
| Kung
zi, ou Confúcio (551 a.C –
479 a.C.) foi, provavelmente, o pensador
que mais influenciou a cultura e a sociedade
chinesa desde a antiguidade até
nossos dias. Não é exagero
dizer que o amor nutrido pela China ao
antigo, a tradição, tem
grande parte de suas raízes fincadas
no pensamento deste sábio, um entusiasta
da história, dos costumes e da
civilização: “revelando-se
o passado, compreende-se o presente”,
teria dito (LY, 2:11). Preocupado com
a crise que se instalava nas instituições
da dinastia Zhou, sua resposta filosófica
centrou-se na discussão dos mais
diversos tópicos relativos à
política, aos costumes, e a construção
do conhecimento, difundido através
de uma ampla proposta educativa. Era antes
de tudo um humanista, e sua figura praticamente
molda o arquétipo do sábio
chinês; um ser profundo, denso,
sensível, comedido e perspicaz.(LY,
10)
Decorrente disto, aquela que veio a se
chamar escola dos letrados (rujia), organizada
por seus discípulos, constituía-se
num sistema de pensamento muito bem estruturado,
pautado em valores definidos, como o Li
(Ritual), Zheng (Conduta), Ren (Humanismo),
entre outros. |
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COLUNISTA
André Bueno
Graduado
em Historia pela UFRJ
Mestre em Historia pela UFF
Doutorando em Filosofia pela UGF
Áreas de estudo: Na graduação
e no mestrado, estudou as relações
comerciais e culturais entre Roma e
China no período dos séculos
I ao III d.C. Atualmente trabalha com
pensamento confucionista na tese de
doutorado, analisando o texto do zhong
yong (o justo meio, o meio invariavel,
etc.).
Leciona também em Universidades
do Rio de Janeiro e realiza ocasionalmente
seminários, cursos e oficinas
sobre temas diversos relacionados a
China. Tem ainda dois livros já
divulgados: "Dez lições
de Cultura Chinesa" e "História
Concisa da China Antiga".
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Nesta nossa pequena introdução,
decidimos por privilegiar estes três conceitos,
que julgamos ser os mais importantes para um
conhecimento inicial do confucionismo.
Iniciemos pelo Li. Para Confúcio e seus
seguidores, a questão do comportamento
ritual era o grande índice da civilidade
humana, separando o ser educado dos bárbaros
e ignorantes. No entanto, não havia ninguém,
na mentalidade confucionista, que não
pudesse aprender o comportamento ritual e a
cultura (educar-se, aliás, era a base
da formação de um ser humano,
sem o que ele não se aperfeiçoaria
nem evoluiria do estado primitivo de sua natureza).
O Li se constituía, por conseguinte,
no conjunto dos atos oficiais, religiosos e
sociais responsáveis pela interação
entre os membros da comunidade e pela sua conexão
com a ordem natural e a vontade do Céu:
“o homem de bem, ampliando seus conhecimentos
sem cessar, e ordenando-os pelo ritual, este
não perde o caminho” (LY, 6: 25)
Para este sábio, a execução
deste comportamento ritual era uma forma de
assegurar a reprodução da velha
estrutura de vida que havia possibilitado a
existência da China desde os tempos ancestrais.
(LY, 4:13) A degradação moral,
a corrupção dos costumes e a apropriação
indébita do poder vinham, justamente,
do desconhecimento que as pessoas tinham sobre
a importância deste comportamento ritual,
ocorrido tanto pelas tendências egoísticas
dos homens quanto pela sua má formação
educativa.
Estudar, para Confúcio, era a base de
tudo; instruindo-se, o ser humano assegurava
a conduta reta (Zheng) e a justiça (Yi)
nos negócios públicos e para com
as pessoas. Para o Mestre, a conduta não
era apenas uma forma polida de etiqueta: era
um meio pelo qual as pessoas conheciam seus
limites internos e externos, garantindo seu
bom relacionamento com o próximo. Era
também uma forma de autocontrole, que
em última analise levava a criatura a
perceber sua importância no mundo, deslocando-a
dos interesses próprios para os interesses
da comunidade. Temos uma noção
muito hipócrita da etiqueta, que em nossas
concepções apresenta-se como uma
forma diplomática de relacionamento,
muito ligada à cultura de elite. A idéia
dos confucionistas ia bem além da mera
formalidade: o hábito da retidão
na conduta moral deveria forçar o ser
a repensar suas atitudes, perante seu papel
na sociedade. Assim sendo, as práticas
de relacionamento não seriam uma mera
repressão dos sentimentos, mas sim uma
expressão digna e respeitosa do íntimo,
que através da formalidade, seriam filtradas
de forma não agressiva.
Estas idéias se originavam da concepção
de Confúcio de que Ren (o Humanismo)
era, de fato, a base de todo o Mundo. Mas o
que é Humanismo numa visão confucionista?
É complicado traduzir este termo para
nossa língua, tendo em vista que ele
engloba várias idéias diferentes,
mas façamos uma aproximação
explicativa.
O primeiro conceito que podemos utilizar para
entender este Humanismo confucionista é
o do Amor. (LY, 4:3) Muito se deturpou em relação
à sua proposta de distribuição
do afeto entre os seres, e cedo tendeu-se a
acreditar que Confúcio defendia a possibilidade
de amar apenas aqueles que também fossem
civilizados, o que em breve traduziria-se por
“chineses”. Isso não é
verdade: mesmo criticando os bárbaros
do Norte por seus costumes diferentes e agressivos,
Confúcio nunca estabeleceu um limite
para quem poderia ou não entender o caminho
(Dao) por ele proposto. A base desse Humanismo,
assim como do ritual e da conduta eram, sempre,
os estudos. Estudar a si próprio, estudar
os outros, estudar a cultura, formando assim
um arcabouço íntimo de idéias
e valores: eis o mister dos autênticos
confucionistas. Assim sendo, Amar é um
termo que se aproxima pela noção
de sentimento afetivo recíproco, de compreensão
mútua, de equilíbrio e equanimidade
entre as pessoas. Isso não basta, porém,
para explicar o Ren.
Devemos aqui incluir outra noção,
a do Altruísmo. A ajuda desinteressada
faz parte dos elementos componentes do Ren,
o que permite o equilíbrio da sociedade
pelo aproveitamento sadio de todos os seres.
Para Confúcio, a simples caridade era
uma medida emergencial; a longo prazo, no entanto,
o mestre se colocava contra a sua prática
- por ser humilhante em certos casos - e por
reforçar as desigualdades e a acomodação
(LY, 6:3). Era necessário empreender
a educação comum, a ajuda mútua
e a distribuição do trabalho para
que todos pudessem viver em uma harmonia digna,
justa. Uma pessoa só seria lançada
ao desequilíbrio e a carência se
não tivesse trabalho ou, ainda, se mesmo
com trabalho, não tivesse uma educação
que lhe impedisse de cometer excessos ou que
a fizesse desconhecer as regras de conduta e
de ritual; “praticar o ren é começar
por si próprio, querer para os outros
o que quer para si mesmo (...) busca em ti a
idéia daquilo que podes fazer pelos outros-
eis o que te porá no caminho do ren”
(LY, 6:28).
No período Han (III a.C. – III
d.C.), quando o Confucionismo foi adotado pelo
Estado como filosofia oficial, a China passou
por um período de grande renovação
cultural e intelectual derivada destas propostas.
No entanto, a escola dos letrados sofreu, também,
grandes deturpações, transformando-se
inclusive numa espécie de “religião
estatal”, algo que Confúcio provavelmente
lastimaria. O principal desvio, no entanto,
foi a transformação do comportamento
ritual em um separador da cultura chinesa em
relação ao resto do mundo; somada
a banalização do Ren, que se transformou
em um conceito de afeto disperso e superficial,
dirigido em termos caritativos, o confucionismo
perdeu grande parte de sua potência como
proposta universal para se tornar um discurso
sinocentrista de civilização.
Temos que nos impressionar, no entanto, com
a atualidade e a abrangência da proposição
original de Confúcio. “Amar a todos”,
e “não fazer ao próximo
o que não quer que façam com você”
(LY, 12:22, 13:23) são, no mínimo,
afirmações tiradas sobre uma razão
humana que transcende as lógicas culturais.
Nessa hora somos obrigados a nos perguntar se,
de fato, alguns autores chineses não
estão certos ao afirmar a ascendência
do espírito humano sobre certos valores
e conceitos similares que surgem, em diversas
sociedades e contextos históricos, tendo
por base pressupostos culturais completamente
diferentes. Há que se pensar aí,
realmente, numa universalidade do saber, patrimônio
indelével da mentalidade humana que de
tempos em tempos é inferida por estes
grandes pensadores. E Confúcio, já
no século VI a.C. foi capaz de elaborar
uma proposta, em muitos aspectos invejável,
para a resolução de problemas
sociais que parecem atravessar a existência
humana com persistência e tenacidade,
sobre os quais apenas a vontade íntima
é capaz de se sobrepor.
Bibliografia indicada:
LY = Lunyu (Analetos ou Diálogos, de
Confúcio)
CHENG, A. Historia del pensamiento
chino. Madrid: Bellaterra, 2003.
CONFUCIO. Analetos. São Paulo: Martins
Fontes, 2002. trad. S. Leys
CONFUCIO. Diálogos. São Paulo:
IBRASA, 1983. trad. A. Cheng
GRANET, M. O pensamento Chinês. Rio de
Janeiro: Contraponto, 1997.
JINGPAN, C. Confucius as a Teacher. Beijing:
FLP, 1990.
XINZHONG, Y. El Confucianismo. Madrid: Cambridge
University Press, 2002.
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