| Existe
- ou existiu - filosofia na China? A pergunta,
aparentemente tola, guarda uma profunda
relação com o problema da
aceitação do pensamento
oriental pelo Ocidente. Filosofia, religião,
supertição.....em que categoria
poderíamos enquadrar o pensamento
chinês, em suas múltiplas
manifestações? E será,
também, que estas categorias são
apropriadas para avalia-lo? A discussão
em torno das características do
pensar chinês tem aumentado nos
últimos anos, principalmente pelas
reticências da academia em aceitar
uma “filosofia” que pouco
se enquadra aos moldes gregos, e que,
no entanto, tem (no mínimo) 3000
anos de existência e continua a
se desenvolver com grande força....como,
então, situar-se nesta questão?
Neste sucinto texto, gostaria apenas de
levantar alguns pontos concernentes ao
assunto, para que o leitor intere-se um
pouco mais sobre este problema.
Há mais de um século, alguns
autores ocidentais tem questionado a tendência
natural de associar as formas de pensamento
asiático ao que chamamos Filosofia
por tratar-se de um termo grego, que teoricamente
não teria correspondente na língua
chinesa ou indiana (para entender a questão,
veja Panikkar, 1996 e Cheng, 2003). |
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COLUNISTA
André Bueno
Graduado
em Historia pela UFRJ
Mestre em Historia pela UFF
Doutorando em Filosofia pela UGF
Áreas de estudo: Na graduação
e no mestrado, estudou as relações
comerciais e culturais entre Roma e
China no período dos séculos
I ao III d.C. Atualmente trabalha com
pensamento confucionista na tese de
doutorado, analisando o texto do zhong
yong (o justo meio, o meio invariavel,
etc.).
Leciona também em Universidades
do Rio de Janeiro e realiza ocasionalmente
seminários, cursos e oficinas
sobre temas diversos relacionados a
China. Tem ainda dois livros já
divulgados: "Dez lições
de Cultura Chinesa" e "História
Concisa da China Antiga".
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Somou-se a isso o forte movimento racista e colonialista
do século XIX, que tratou de encarar as
formas de pensamento orientais como simples manifestações
religiosas (Shaw, 1978), desprovidas de profundidade
conceitual. No entanto, este mesmo discurso esbarrava
nas contradições apresentadas pela
própria noção de religião
(essencialmente cristã) que o Ocidente
possuía, o que terminava por gerar uma
indecisão profunda sobre as formas de encarar
o saber destas civilizações.
O desconhecimento das línguas orientais
surgiu aí como uma tábua salvadora
para estes autores preconceituosos, que não
podiam acreditar que o Oriente pudesse ter produzido
algo tão profundo quanto à filosofia
grega ou latina (ou seja, nada mais fácil
que negar um pensamento como o chinês, por
exemplo, sem ao menos ter lido um texto sequer),
embora desde o século XVIII algumas vozes
se levantassem contra isso (como foi o caso de
Voltaire e Leibniz).
Com a dissensão das relações
culturais entre o Ocidente e a Ásia ao
longo do século XX, tais questões
foram flexibilizadas, embora sem uma resolução
definitiva. Na década de 40, alguns livros
e revistas assumiram o termo Filosofia como algo
abrangente, que englobava toda e qualquer forma
de pensar (como a revista Philosophy in East and
West, publicada no Havaí, e mundialmente
reconhecida pelo seu longo trabalho intercultural
entre oriente e ocidente). Mas ainda assim, um
problema persistia: o fato de que toda e qualquer
forma de pensamento asiática, africana
e oceânica só era considerada como
Filosofia se fosse lida através das conceituações
tradicionais do Ocidente, e não em suas
formas autênticas (Chan, 1979). Ainda existia
a tendência de se aglutinar todas as formas
de pensamento oriental como se fossem representações
de um sistema único, movimento que infelizmente
persiste. É o caso muito natural daquele
que pergunta “qual a resposta da filosofia
oriental para tal questão?”, ou “o
que os chineses acham disso?”. Tal prática
representa rematado desconhecimento quanto à
diversidade das formas de pensamento no Oriente,
e por isso mesmo, não raro ainda encontramos
especialistas com uma dificuldade incrível
de fazer distinções sobre o tema
e evitar preconceitos e estereótipos.
Recentemente, autores orientais como A. Coomaraswamy,
R. Panikkar, E. Said, entre outros, se voltaram
para o tema, questionando a legitimidade desta
situação. Em teoria, o reconhecimento
do pensamento oriental como Filosofia significaria,
ainda, a sujeição destas formas
de saber a uma hierarquia cultural que toma a
terminologia grega como referência para
discussão. No entanto, hoje há um
certo consenso de que o aprendizado de todo e
qualquer sistema filosófico leva algum
tempo, exigindo um certo conhecimento da língua
empregada pelo autor (ou documento) para o domínio
do mesmo. Desta forma, o emprego da terminologia
Filosofia para o pensamento oriental acabou sendo
aceito (por todos, tanto asiáticos como
ocidentais) para simplificar o assunto, mas com
ressalvas oportunas. Na China, uma expressão
composta é utilizada, atualmente, para
corresponder à palavra Filosofia (zhe xue,
que significa Estudar com sagacidade, com determinação,
com sabedoria – Wu, 1998).
Esta discussão inicial, apesar de breve,
serve para determinar a orientação
destes nossos pequenos estudos sobre o pensar
chinês: fazer uma abordagem com o máximo
de isenção possível, utilizando
para tal mister das análises de autores
tanto ocidentais como orientais. No mais, fica
a lição sobre como ainda temos que
derrubar muitas barreiras para compreender e aceitar
a filosofia asiática com uma legítima
forma de saber, conquanto o caso demonstre o como
ainda somos carregados de preconceito para lidar
com outras formas de cultura que não sejam
a nossa: prática que reproduzimos, inclusive,
dentro de nossa própria sociedade com outras
classes, e que exige uma intensa atenção
de nossa parte.
Bibliografia Indicada:
CHAN W. T. “O Espírito da Filosofia
Oriental” in Filosofia: Oriente, Ocidente.
São Paulo: EDUSP-Cultrix, 1979.
CHENG, A. Historia del pensamiento chino. Madrid:
Bellaterra, 2003.
PANIKKAR, R. “Religión, Filosofía
y Cultura”. In Revista de las ciencias
de las religiones. Ciudad de México,
1996 v.1.
COOMARASWAMY, A. O que é civilização?
São Paulo: Siciliano, 1993.
SAID, E. Orientalismo. São Paulo: Companhia
das Letras, 1998.
SHAW Y. M. “A Cultura chinesa na visão
do Ocidente” in BOFF, L. (org.) China
e o Cristianismo. Petrópolis: Vozes,
1978.
WU X. M. “Philosophy, Philosophia. and
Zhe-Xue”. In Philosophy East & West.
Hawai, 1998. n.48