| Embora
a Escola Cosmológica não
possa ser datada com segurança,
alguns autores defendem a possibilidade
da mesma ter surgido (talvez) na época
de Confúcio, tendo em vista que
dois de seus textos principais foram incluídos
no Shujing (Tratado dos Livros) e no Liqi
(Manual dos Rituais). Outros supõem
que essa anexação teria
se dado somente no período Han
(III a.C – III d.C.), e há
ainda uma tradição que atribui
a um autor chamado Zuoyan (IV ou III a.C.)
a elaboração das teorias
defendidas pelos cosmologistas. Não
há um consenso, portanto, sobre
as origens históricas da mesma,
mas podemos afirmar, com alguma segurança,
que pelo menos desde o século IV
a.C. as idéias desta escola estavam
sendo organizadas e difundidas por entre
os outros sistemas.
Acredita-se também que a escola
cosmológica tenha surgido da evolução
de outra doutrina, conhecido como escola
yin-yang. Ligada a uma tradição
mística de interpretação
do Yijing, a escola yin-yang buscava a
tradução dos mecanismos
cósmicos através da compreensão
da oposição complementar
entre estas duas formas supremas de energia
e por uma leitura específica das
relações hexagramáticas
presentes no texto do tratado. Esta teoria,
contudo, ainda guardava um forte conteúdo
religioso, estando ligada a práticas
mágicas e oraculares muito difundidas
em toda a China Antiga, desde o período
Shang (XV – XI a.C.).
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COLUNISTA
André Bueno
Graduado
em Historia pela UFRJ
Mestre em Historia pela UFF
Doutorando em Filosofia pela UGF
Áreas de estudo: Na graduação
e no mestrado, estudou as relações
comerciais e culturais entre Roma e
China no período dos séculos
I ao III d.C. Atualmente trabalha com
pensamento confucionista na tese de
doutorado, analisando o texto do zhong
yong (o justo meio, o meio invariavel,
etc.).
Leciona também em Universidades
do Rio de Janeiro e realiza ocasionalmente
seminários, cursos e oficinas
sobre temas diversos relacionados a
China. Tem ainda dois livros já
divulgados: "Dez lições
de Cultura Chinesa" e "História
Concisa da China Antiga".
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A proposta cosmológica consistia em compreender
o ritmo da natureza através de sua observação,
classificação, domínio e
utilização. Embora empregasse também
o sistema yin-yang, os cosmológicos realizaram
três inserções fundamentais
na elaboração de suas teorias: a
necessidade de empregar o pragmatismo confucionista
na observação da natureza, realizando-a
de modo prático e não religioso;
a conexão dos elementos primordiais (yin-yang)
com o conceito da energia (Qi), e o desenvolvimento
da relação das cinco fases (wuxing),
que explicariam as formas pelas quais a energia
se concretiza no plano material.
Baseando-se na idéia da originação
primordial do universo pela relação
vazio – princípio (ver o ensaio sobre
os Elementos Primitivos), a primeira manifestação
cósmica se daria pela constituição
das mônadas yin-yang, conceitos fomentadores
de toda criação; a estes se segue
a matéria (ou energia, Qi), que concretiza
os oito estados essenciais da natureza, os Guas
(Trigramas), que são o Céu, a Terra,
o Trovão, a Água, o Fogo, a Montanha,
o Lago e o Vento; cada um desses Guas tem sua
estrutura regida por uma conformação
específica dos cinco estados da matéria,
os wuxing (água, fogo, metal, madeira e
terra), que estão organizados entre si
em relações de fomento, anulação,
mitigação e interpolação.
O resultado destas experimentações
levou a formulação de uma teoria
organicista que conseguiu articular a cosmologia
desenvolvida no período Zhou com uma série
de procedimentos básicos de investigação
e explicação da natureza que viabilizava
o uso de seus recursos, de forma lógica
e ordenada, para os mais diversos fins. A teoria
cosmológica, portanto, deu base para o
desenvolvimento de toda uma “ciência”
chinesa, inferindo os ciclos fundamentais do cosmo,
seu funcionamento, e suas propriedades.
No período Han, os cosmológicos
obtiveram grandes avanços no campo intelectual,
sendo absorvidos pelas mais diversas escolas filosóficas
e em praticamente todos os ramos do conhecimento.
Sua influência é atestada na Arquitetura
(Fengshui), Medicina (como no caso da acupuntura,
ou do texto médico explicativo Neijing,
ou Tratado Interno), História (Sima Qian
utilizou a teoria do wuxing na formulação
do Shiji [Registros históricos]), Agricultura,
etc.
Apesar de pouco sabermos sobre os principais especialistas
desta escola, podemos admitir seu grande sucesso
em implementar uma proposta sobre como racionalizar
o conhecimento sobre a natureza estruturando-a
em leis definidas, observáveis e comprováveis.
A eficácia dos métodos cosmológicos
é confirmada pelo longo tempo em que estes
têm sido empregados nas ciências tradicionais
chinesas e, apesar de suas teorias terem sido
discutidas por vários autores em toda história
da China, sua estrutura básica mantém-se
praticamente a mesma, quase sem modificações.
Bibliografia Indicada:
Anônimo. Neijing. Rio de Janeiro: Objetiva,
1991. (a autoria deste texto é tradicionalmente
atribuída a Huangdi, o Imperador Amarelo)
Anônimo. O Livro do Imperador Amarelo.
Rio de Janeiro: Ícone, 2002. (outra tradução
mais recente do Neijing)
CHENG, A. Historia del pensamiento chino. Madrid:
Bellaterra, 2003.
COOPER, J. Yin - Yang. SP: Martins Fontes, 1985.
MARKETT, C. Yin - Yang. SP: Cultrix, 1995.
RONAN, C. História Ilustrada da Ciência
de Cambridge. Rio de Janeiro: Zahar, 1987 Vol.
2
NEEDHAM, J. La Gran Titulación. Madrid:
Alianza, 1977.
NEEDHAM, J. De la ciencia y la tecnología
chinas. Madrid: Siglo Veintiuno, 1978.