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Podemos
afirmar que a gênese da Filosofia
chinesa tradicional, tal como a conhecemos
hoje, situa-se no século VI a.C.
com Confúcio, Laozi, e o estabelecimento
das primeiras escolas de pensamento da
antiguidade. Esta classificação
se dá por dois motivos: primeiro,
pela falta de um conhecimento mais preciso
dos sistemas que existiam anteriormente
ao período citado; segundo, que
este mesmo momento histórico caracteriza-se
pelo rompimento das estruturas culturais
vigentes até então, e pelo
estabelecimento dos paradigmas que serviriam
como conteúdo de discussão
até os dias de hoje (Chan, 1979).
No entanto, algumas informações
fragmentárias nos permitem inferir
a estruturação de diversos
conceitos filosóficos anteriores
ao século VI a.C., e creio ser
interessante apresenta-los aqui para compreendermos
a base de discussão sobre a qual
os sistemas tradicionais se desenvolveram.
Inicialmente, podemos afirmar que existia
uma cosmologia razoavelmente estabelecida
no pensamento chinês, que trabalhava
com uma série de idéias
que remontam ao período Shang,
do século XVI a.C., e que seriam
posteriormente desenvolvidas pela dinastia
Zhou. |
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COLUNISTA
André Bueno
Graduado
em Historia pela UFRJ
Mestre em Historia pela UFF
Doutorando em Filosofia pela UGF
Áreas de estudo: Na graduação
e no mestrado, estudou as relações
comerciais e culturais entre Roma e
China no período dos séculos
I ao III d.C. Atualmente trabalha com
pensamento confucionista na tese de
doutorado, analisando o texto do zhong
yong (o justo meio, o meio invariavel,
etc.).
Leciona também em Universidades
do Rio de Janeiro e realiza ocasionalmente
seminários, cursos e oficinas
sobre temas diversos relacionados a
China. Tem ainda dois livros já
divulgados: "Dez lições
de Cultura Chinesa" e "História
Concisa da China Antiga".
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Desde a descoberta das carapaças de tartaruga
de uso premonitório e oracular (ver Ebrey,
1993), vemos menções aos designativos
Tian (Céu), Dao (Caminho), Yi (Mutação),
etc. Tais citações aparecem também
nos vasos de bronze de uso ritual da mesma dinastia
Shang (ver Watson, 1969). Este material nos dá
idéia de um sistema de interpretação
e interação com o cosmo que oscilava
entre o religioso e o natural. A conclusão
da formulação deste sistema aparece
nos discursos do Yijing (Livro das Mutações),
recuperado por Confúcio, que traduz nas
fórmulas hexagramáticas a interpretação
que os chineses tinham do que era natureza e da
relação que sua cultura possuía
com ela, como veremos adiante.
Neste pensamento primitivo, havia a idéia
corrente de que a civilização era
um desdobramento criativo do ser humano em relação
à natureza primordial. No entanto, o mesmo
ser necessitava estar em constante interação
com o cosmo, pois, estando inserido nele, não
podia de forma alguma obliterar os seus canais
de comunicação sensorial, sob o
risco de perder-se em si mesmo e em seu meio.
Esta natureza (ou cosmo) era designada pelo termo
Tian (Céu), ao qual o plano material (a
Terra) estava indissoluvelmente ligado. Perder
o caminho era perder o Dao, ou seja, desligar-se
da real natureza para incorrer na corrupção
e na degradação do próprio
ser.
No entanto, acreditava-se que a sociedade era
uma reprodução da harmonia celeste:
ou, ao menos, eram o que imaginavam os pensadores
da dinastia Zhou. Tendo assumido o poder no século
XI a.C., após a derrubada dos Shang, os
Zhou criaram a idéia de um passado ideal
que culminava na formulação de uma
civilização perfeita, ou seja, a
sua. (Cheng, 2003).
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Não entraremos aqui nas considerações
mitológicas, tendo em vista que muitas
não são comprováveis;
e a partir do século VI a.C. tal
mitologia ganha um caráter muito
mais ilustrativo e modelar do que realmente
verídico. Nos atenhamos, portanto,
a questão conceitual. |
Neste tempo, surgem os clássicos que Confúcio
depois resgataria: o Li Qi (Manual dos Rituais),
o Shijing (Tratado das Poesias), Shujing (Tratado
das Histórias), Yuejing (Tratado das Músicas)
e o Yijing (Tratado das Mutações).
Ele ainda somaria a estes textos uma crônica
histórica escrita por si próprio,
o Chunqiu (Anais das Primaveras e Outonos). Quase
todos estes escritos não tratam de assuntos
diretamente ligados à formulação
de um pensamento filosófico, mas por se
tratarem de conteúdos de uma cultura antiga
ideal, Confúcio os empregaria para o estudo
e aperfeiçoamento de seus discípulos.
A produção deste conhecimento corresponde
diretamente ao aperfeiçoamento das antigas
teorias cosmológicas Shang que o período
Zhou promoveu: o universo, gerado por um princípio
(Li) se originaria de um vazio primordial (Kung,
ou Wu). Deste princípio se origina a oposição
complementar fundamental (Yin e Yang), que geraria
os oito estados essenciais da natureza (os oito
Guas, ou trigramas, do Yijing). Noções
como Qi (energia) e Wuxing (cinco agentes) iriam
em breve aparecer, também, na literatura
filosófica. Esta cosmologia seria a base
das discussões concernentes a busca do
Dao (o caminho, ou a conexão primordial)
que permeariam a formação das jias
(escolas de pensamento) depois do século
VI a.C. (Vandermeersch, 1980).
O que aconteceu neste último período
é razoavelmente conhecido e não
nos aprofundaremos nisso: a dinastia Zhou começou
a entrar num processo de degradação
das estruturas de poder e as guerras civis começaram
a estalar. Diante do quadro caótico que
se apresentava, os pensadores chineses decidiram
resgatar (ou romper) com o passado e elaborar
uma nova civilização. Foi quando
surgiu, então, o período das Cem
escolas de pensamento, donde proviria a nata destes
filósofos chineses que escreveram seus
nomes na História.
O nome desta época deriva da grande quantidade
de sistemas filosóficos que teriam surgido
prometendo respostas para os problemas sociais
e políticos que assolariam a China até
o século III a.C. Não sabemos com
exatidão a extensão deste movimento;
os historiadores Sima Qian (II-I a.C.) e Ban Gu
(I d.C.) propuseram uma classificação
arbitrária que organizava, com fins didáticos,
a linhas de pensamento que estas escolas seguiam.
Sua divisão se daria da seguinte forma:
Escola dos Letrados (Confucionistas), Escola Moísta,
Daoísta, Legista, Nominalista, Cosmologista,
Política, Eclética e Escola dos
Agricultores. (Joppert, 1979)
As linhas mais importantes teriam sido a confucionista,
daoísta, moísta, legista, nominalista
e cosmologista. As outras, de menor importância,
não teriam deixado contribuições
decisivas para sua sobrevivência até
os nossos dias.
Vale ressaltar que quase todo material de que
dispomos hoje para estudar este Filosofia antiga
resulta de um grande esforço empreendido
durante a dinastia Han (III a.C. – III
d.C.) para resgatar as obras antigas do pensamento
chinês, já que durante a dinastia
Qin (III a.C.), houve uma grande queima de livros
filosóficos (tidos como subversivos e
reacionários) que açambarcou vários
dos títulos que hoje conhecemos. Mas
o esforço de sábios, famílias
e intelectuais permitiu uma recuperação
grandiosa deste material, que os Han buscaram,
na medida do possível, reproduzir de
forma indistinta e imparcial.
Bibliografia Indicada:
CHAN W. T. “Historia da Filosofia Chinesa”
in Filosofia: Oriente, Ocidente. São
Paulo: EDUSP-Cultrix, 1979.
CHENG, A. Historia del pensamiento chino. Madrid:
Bellaterra, 2003.
EBREY, P. Sources of Chinese Civilization. California:
UCP, 1993.
EYSSALET, J. Shen, o instante criativo. São
Paulo: Gryphus, 2003.
GERNET, J. O Mundo Chinês. Lisboa: Cosmos,
1969.
GRANET, M. O pensamento Chinês. Rio de
Janeiro: Contraponto, 1997.
JOPPERT, R. O Alicerce cultural da China. Rio
de Janeiro: Avenir, 1979.
WATSON, W. China Antiga. Lisboa: Verbo, 1969.
WILHELM, R. I Ching, o Livro das Mutações.
São Paulo: Pensamento, 1988.
VANDERMEERSCH, L. Wang dao, la voie royale.
Paris: EFEO, 1977-1980 2 vls.