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A
base mais segura para discutirmos o surgimento
do antigo pensamento chinês esta
afixada na figura do sábio Kungzi
(VI a.C.), que os missionários
portugueses do século XVI chamaram
de Confúcio. Comprovado historicamente,
e a primeira das figuras a indignar-se
com a crise de sua época, Confúcio
pregava a reestruturação
social de sua civilização
tendo como modelo o passado ideal dos
Zhou, mas através de uma metodologia
totalmente inovadora. |
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COLUNISTA
André Bueno
Graduado
em Historia pela UFRJ
Mestre em Historia pela UFF
Doutorando em Filosofia pela UGF
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Embora se visse desta forma, a idéia
de resgatar o passado não lhe transformava
num conservador marcado: Confúcio examinou
as causas da corrupção de sua
sociedade, e concluiu que a degradação
era promovida pelo não cumprimento das
vontades da natureza (Tian). O desconhecimento
dessas causas era gerado pela falta de educação,
e, por conseguinte, para que as pessoas pudessem
compreender o caminho (Dao), era necessário
que estudassem. Estudando, podiam entender como
funcionava a sociedade, os costumes, e assim
sendo, poderiam segui-los. No entanto, o próprio
Confúcio achava que sua proposta ética
não podia pautar-se em nenhum critério
religioso: “se não se sabe servir
em vida, como podemos esperar compreender a
morte?” (LY, 11:2)
O Ideal de Confúcio era de que todos
estudassem em se transformassem em “seres
superiores” (junzi, ou nobreza d’alma),
titulação que não denota
nenhum título nobiliárquico, mas
sim, moral e ético. A superioridade aí
descrita é a compreensão da principal
virtude do ser, o Ren. Esta palavra é
de difícil tradução: o
ideograma é composto pelo radical ser
humano e o número dois. Isso representa
a junção de duas pessoas, o que
pode ser entendido como ajuda, altruísmo,
benevolência, caridade, união.

M. Granet (1997) acreditava que a melhor tradução
possível deste termo era humanismo, já
que Confúcio era favorável a um
tipo de ajuda dignificante, que aperfeiçoasse
o ser, em detrimento da caridade pura e simples,
que ao seu ver gerava apenas dependência.
Chan (1979) apontou muito bem o fato do próprio
Confúcio não ter explicado muito
bem o termo, privilegiando, provavelmente, a
sua prática. Isso fica claro nas suas
máximas “ame a todos, sem distinção”,
“não faça aos outro o que
não quer que lhe seja feito” e
“desejando ter êxito, procure ajudar
os outros a ter êxito também”
(LY, 12:22, 6:28)
Na proposta confucionista, o estudo em si, porém,
não bastava: convinha que as pessoas
atentassem a sua conduta: “raciocinar
sem estudar é frívolo: estudar
sem raciocinar é perigoso” (LY,
2:15), “retribui sempre com a bondade”
(LY, 14:36), e busca sempre “conhecer
os homens” (LY, 12:22).
Esta fé na retificação
do ser humano está contida em três
livros da escola Confucionista, que são
o Lun Yu (Analectos, ou Conversações),
o Da Xue (Grande Estudo) e o Zhong Yong (O Justo
Meio, Harmonia Central, Doutrina do Meio, entre
outras traduções possíveis).
È possível que só o primeiro
tenha sido realmente feito com ditos do próprio
Confúcio. O Zhong Yong teria sido escrito
pelo neto de Confúcio, Zisi, representando
um amadurecimento das idéias desta escola
e abrindo espaço para o surgimento de
Mengzi (Mêncio), autor que deu nome ao
quarto livro do Cânon Confucionista.
O Zhong Yong deixava claro que o caminho do
ser estava contido na analise individual constante
e na preocupação com o coletivo:
“aquilo que o céu outorgou se chama
natureza, e a harmonia com este princípio
é o caminho; a ordenação
deste caminho é a cultura” (ZY,
1)
Meng zi (Mêncio), no século IV
a.C., iria desenvolver esta idéia da
Cultura ligada a natureza, concluindo que, se
a cultura é uma construção
do Ser proveniente do natural (ou seja, é
um desenvolvimento do mesmo), logo, a natureza
do Ser e das coisas é construtiva e boa
(MZ, VI, 1:2). A corrupção, por
conseqüência, é resultado
da ignorância (MZ, VI, 1:6 e VII, 1:15).
Esta perspectiva idealista iria se desdobrar
em sua obra, fomentando seu discurso a favor
do povo e contra o abuso. Para Mêncio,
a vontade das classes baixas era a vontade do
Céu, por ser a mais pura: a elite, por
conseguinte, devia prestar atenção
nos seus atos, já que era a mais educada
e, no entanto, a que mais praticava a corrupção.
Isto não era uma contradição
para Mêncio: na verdade, todas as classes
se viam imersas na Cultura: o povo, porém,
era o que estava mais próximo daquilo
que se exigia dele, conquanto os grupos superiores
da sociedade, apesar de “instruídos”,
se deixavam levar por seus interesses mesquinhos.
Logo, a questão não era mais apenas
o esforço no trabalho e pela instrução,
mas a “qualidade” e a “prática”
do “estudo”. E os pobres, mesmo
sabendo pouco, e tendo o direito de errar, ainda
assim buscavam agir de forma correta.
Xunzi (Hsun tse) discordou, no entanto, dessa
visão otimista de Mêncio. Ambos
foram praticamente contemporâneos, embora
não tenham se encontrado. Xun zi era
totalmente avesso a idéia de bondade
natural do seres. Para ele, ocorria justamente
o contrário: todos nasciam maus, e assim
o seriam se não fossem educados. Em tempos
de fome, guerra e escassez, os seres humanos
mostravam sua selvageria, matando-se uns aos
outros, tais como animais. Na natureza, alias,
a caça e a destruição são
constantes, inerentes ao ciclo cósmico.
Logo, a natureza do ser é má;
mas poderia ser modificada pela educação
(XZ, 23).
Novamente vemos a recorrência da necessidade
do estudo para o conhecimento das virtudes.
Xun zi acreditava que a cultura era uma construção
humana para sua própria preservação,
e apenas aqueles que não fossem instruídos
tornar-se-iam elementos perigosos. Um mínimo
de noção de civilidade tornava
qualquer ser mais sociável. O Ser, mau
por natureza, “precisava de professores
e leis” (XZ, 23) para ser modificado.
No entanto, se tal mister fosse alcançado,
haveria uma harmonia perfeita (XZ, 17).
Xun zi aperfeiçoou, ainda, a questão
da retificação dos nomes (XZ,
22). Introduzida por Confúcio, ela tratava
da necessidade de verificar como eram aplicados
e entendidos certos conceitos, concepções
e termos empregados no discurso filosófico,
social e político. O objetivo não
era apenas o de criar definições
específicas para cada palavra, mas também,
de torna-la compreensível e acessível
a todos; e, por fim, de garantir sua aplicabilidade
no cotidiano, evitando confusões.
Esta questão parecer-nos-ia irrelevante,
se na cultura chinesa não houvesse uma
crença firme no poder que a palavra tinha
de suscitar um movimento no plano real. Logo,
o mau uso de um termo qualquer geraria uma ação
descontrolada sobre a matéria, desagregando-a
ou criando uma conformação não
adequada à nossa vida. Daí porque
o comedimento nas palavras, a discussão
salutar e edificante e a análise constante
do saber tornar-se-iam motes fundamentais desta
doutrina.
Confúcio e Mêncio seriam eleitos
santos em períodos posteriores; Xun zi
quase não seria reconhecido como um confucionista,
e seu nome é fortemente associado à
outra escola (dos legistas, como veremos adiante).
Confúcio se situa, no entanto, como a
base do humanismo chinês, e o primeiro
dos grandes autores a encarar, de frente –
e numa perspectiva universalista - os problemas
do mundo. Afora os outros autores com os quais
iremos lidar, alguns mesmo de existência
duvidosa, Confúcio é a referência
segura que temos para compreender a base sobre
a qual muito da filosofia chinesa posterior
iria se desenvolver. Mêncio foi seu complemento
ideal, e o embate de suas idéias com
as de Xunzi nos dá um exemplo perfeito
da capacidade de interpretação
variada que estes autores possuíam.
Bibliografia indicada:
LY = Lunyu (Diálogos, de Confúcio)
MZ = Mengzi (Livro de Mêncio)
XZ = Xunzi (Livro de Xunzi)
ZY = Zhong Yong (O Justo Meio, ou Harmonia Central,
etc.)
CHAN W. T. “Historia da
Filosofia Chinesa” in Filosofia: Oriente,
Ocidente. São Paulo: EDUSP-Cultrix, 1979.
CHENG, A. Historia del pensamiento chino. Madrid:
Bellaterra, 2003.
CONFUCIO. Quadrivolume de Confúcio. Macau:
Jesuítas de Macau, 1980. trad. E org.
Pe. Joaquim Guerra.
GRANET, M. O pensamento Chinês. Rio de
Janeiro: Contraponto, 1997.
MÊNCIO. Livro de Mâncio. Macau:
Jesuítas de Macau, 1980. trad. Pe. Joaquim
Guerra.
XINZHONG, Y. El Confucianismo. Madrid: Cambridge
University Press, 2002.
XUNZI. Xunzi. Hunan: Huanan Publisher, 2002
(coleção Chinese Classics)
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