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Reflexões sobre o "bum" econômico da China

16 de junho de 2005


China paga seu "milagre" econômico com a desagregação da sua sociedade

Enquanto o país enriquece, diferenças entre suas classes sociais aprofundam-se; a situação poderá levar a um desfecho explosiva.

Frédéric Bobin
Correspondente na China

Pinghu, província do Zhejiang, dezembro de 2002.

O carro de luxo atravessa em velocidade a paisagem plana dos confins rurais de Xangai, onde aparecem aqui e lá alguns sobrados, construídos por camponeses que enriqueceram. Ao lado do motorista, Xiao Mei, uma jovem e linda mulher coberta de jóias Cartier, conta mil maravilhas sobre a mais recente operação na bolsa do seu patrão, que, segundo ela, é um empreiteiro dos novos tempos.

De repente, o horizonte é cortado por uma maciça incongruência grego-gótica. Uma imitação do Capitólio que surge nos confins rurais de Xangai, isso é um choque e tanto!

À medida que o carro vai se aproximando, aparece um imponente domo bulboso com elementos de madrepérola, que cobre um peristilo de colunas corintianas, flanqueado por uma réplica, só que desta vez, da Casa Branca. O conjunto arquitetônico é cercado por gramados e piscinas. Nós adentramos no império de Li Qinfu.

Com os seus "castelos" e sua Lamborghini roxa, o jovem bilionário de 39 anos assume sem complexo seus caprichos. Ao ver o seu rosto de colegial um pouco rechonchudo, é difícil imaginar a potência que ele concentra. Uma figura de destaque da nova casta dos empreendedores privados, ele resume duas décadas de reforma econômica pós-maoísta.

Assim como outros desses conquistadores da China emergente, ele iniciou a sua carreira com quase nada. Um aluno fracassado no seu vilarejo rural, ele se inicia aos negócios vendendo lesmas do mar nas feiras.

O seu destino muda de vez no dia em que ele compra por um preço irrisório uma oficina têxtil à beira da falência. Mais tarde, um empresário japonês, um especialista na fabricação de toalhas de banho, descobre o armazém e, em busca de parceiros locais, lhe propõe uma aliança.

Assim nasceu a Shanghaï Matsuoka, uma exportadora arrojada de uniformes de aeromoças e de blusas de enfermeiros. O sucesso desses produtos exportados é fulgurante. É preciso ver a fábrica que fica ao lado da "Casa Branca" para entender.

São diversas oficinas onde trabalha um formigueiro de operárias em uniforme, docilmente debruçadas sobre as suas máquinas, repetindo ao infinito os mesmos gestos mecânicos. Afixados na parede, vários relógios ritmam as cadências infernais, enquanto as fiscais passam pelas fileiras e chacoalham as retardatárias. É impossível não lembrar das fiações de Manchester durante a era vitoriana.

Êxodo rural, revolução industrial. As analogias possíveis são inúmeras, exceto que um comitê do Partido comunista ocupa aqui um espaço privilegiado. Foi o próprio Li Qinfu que introduziu os quadros e os militantes do partido na sua casa.

No momento em que o Partido celebra a glória dos patrões do setor privado, a ponto de lhes atribuir a medalha do trabalho todos os anos no dia 1º de maio, por que haveria de desconfiar deles? "O comitê do Partido nos ajuda a avaliar o desempenho dos empregados", comemora o patrão. Um aficionado dos carros da Lamborghini que converte um comitê do Partido num sindicato caseiro sob o domo de um Capitólio duplicado: sejam bem vindos à China.

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Pequim, setembro de 2004

Os seus cabelos compridos cobrem o seu pescoço; ele se expressa num inglês perfeito. Aos 42 anos, Zhu Pei é o protótipo da nova geração dos empreendedores e "tomadores de decisões" que, depois de dar algumas voltas pelas universidades ocidentais, acede agora às responsabilidades na China da reforma econômica.

Zhu Pei é um arquiteto. Mas ele não é um arquiteto qualquer. Ele é o primeiro chinês a ter conquistado um dos projetos do futuro conjunto olímpico que será a sede em Pequim dos Jogos Olímpicos de 2008.

No seu escritório de teto elevado, Zhu Pei digita no seu computador e aciona o comando do projetor de slides. Um monólito surge no telão, com a aparência de um mil-folhas com a borda virada para baixo, cortado por estrias luminosas que lembram a nervura de um chip eletrônico.

É a maquete do Beijing Digital, o futuro centro de informática da cidade olímpica. Zhu Pei concebeu-o como sendo o casamento da arquitetura com o mundo digital, na confluência entre macro e micro.

Zhu Pei reivindica alto e bom som a sua qualidade de homem de síntese. Em 1989, quando ainda é um estudante, ele desfila sobre o pavimento da Praça Tiananmen. Enojado com a repressão, ele se exila em Berkeley, nos Estados Unidos.

Após dez anos passados a acumular experiências neste país, ele sente muita saudade da China. Embora a tão esperada revolução democrática não tivesse acontecido, o seu país é então o teatro de uma revolução urbana de tirar o fôlego e o arquiteto Zhu Pei não consegue mais resistir à sedução do retorno ao país. "Já não era sem tempo de voltar", comenta.

Ele descobre então um país em pleno processo de metamorfose. Os oficiais com os quais ele negocia há muito não são mais aqueles idosos dogmáticos. "Eles estão cada vez mais abertos para o mundo", diz.

"Muitos se parecem bastante comigo: eles estudaram no exterior". Embora esta nova China se mostre cada vez mais hospitaleira para pessoas da sua geração, Zhu Pei conserva, contudo, fortes laços com os Estados Unidos, onde permaneceu a sua mulher. Ela adquiriu a cidadania americana. Nunca se sabe...

Shenyang, província do Liaoning, outubro de 1998

"Não há ninguém para cuidar de nós". Ge Zunmin, 70, articula penosamente a sua queixa em meio a um gemido de esgotamento. Ele está sentado num banquinho e aproveita o sol da tarde à beira de uma alameda de terra enquadrada por muros de tijolos enegrecidos pelo enxofre.

Nos arredores, fábricas de aço e de cimento a perder de vista emitem vapores amarelados que dominam no horizonte. Ge Zunmin, o olhar perdido no nada, finge que ele não está escutando o choque surdo do pilão contra as divisórias de gesso dos casebres que estão sendo derrubados.

Há quanto tempo que ele está assistindo sem vê-la à inexorável agonia da sua periferia operária de Shenyang, o berço da indústria pesada da Manchúria?

Neste fim de tarde, o frio começa a se fazer sentir no subúrbio. O idoso começa a tossir, levanta-se do seu banquinho e, andando com dificuldade, entra na sua casa: uma única sala com o chão de cimento e as paredes impregnadas de umidade, iluminada por uma lâmpada de néon lívida.

Quem "cuida", portanto, do velho Ge? No passado, quando ele era um operário da construção, ele chegou a ser o "homem de ferro" de Shenyang. Já faz dois meses que ele não recebe mais a sua aposentadoria. Então, é preciso recorrer ao modesto pé-de-meia para sobreviver.

A alimentação cotidiana limita-se a bolachas de pão cozidas no vapor, acompanhadas por folhas de repolho. O prato de carne é um privilégio que é saboreado uma vez por mês apenas, só nas ocasiões importantes.

Palavra de Ge Zunmin: "Do tempo de Mao [Tse Tung], uma pessoa podia alimentar oito membros da família. Hoje, eu não consigo nem sequer me alimentar sozinho".

O velho Ge está muito irritado. É uma raiva murmurada, sussurrada, uma vez que ele não tem força sequer para levantar a voz. Caso ele ceder à tentação de falar em tom mais alto, os seus pulmões se inflamam.

Então, ele diz baixinho: "Eu passei a vida toda construindo imóveis para os outros, e agora eu não tenho sequer condições para morar numa casa normal". Ele sussurra também: "Hoje, todo mundo mente. O povo não acredita em mais nada".

Durante o festim mensal com um prato de carne, o seu filho, um suboficial do Exército Popular de Liberação (EPL), lhe disse que "até mesmo o exército se tornou corrupto".

Dedicado, o jovem oficial deveria ter sido promovido, mas foi um medíocre que tomou o seu lugar, uma vez que ele devia ter conseguido "fornecer alguma propina aos seus superiores". Com certeza, "todo mundo mente hoje em dia".

Yuanjiayao, província do Shanxi, maio de 2003

Em primeiro lugar, Yuanjiayao é, sobretudo, um flanco. Uma parede de argila perfurada por abrigos. A aldeia é um vilarejo troglodita ordinário, banal, igual a centenas de outras aldeias encostadas nos barrancos que dilaceram o planalto rico em calcário estratificado do norte do Shanxi. O país é seco, árido e coberto por uma fina nuvem amarelada quando um sopra vento potente proveniente do deserto de Gobi.

Trajando um pulôver roxo e usando um fino bigode em espiga, Deng Haiyan penetra com agilidade na sua caverna, uma sala arqueada, estreita, e senta-se sobre o "kang", uma cama dura aquecida por dentro por uma brasa de carvão.

O camponês pede desculpas por não poder servir outra coisa que água quente açucarada. O chá está caro demais. A aldeia, muito pobre, sobrevive apenas com algumas pequenas plantações de milho. O êxodo rumo à cidade constitui na maioria dos casos a única salvação.

Deng Haiyan migrou no passado para um local ao lado de uma mina de carvão do Shanxi. Ele foi um "cara preta", que labutava nas galerias subterrâneas, até o dia em que uma rocha o feriu na cabeça. Foi assim que ele teve de retornar a Yuanjiayao para cultivar o seu magro milho.

Hoje, ele vive sozinho com o seu pai, um setuagenário cujo rosto tem a aparência de um pergaminho, e que traja um boné de lona cinza. O patriarca está doente.

Em intervalos regulares, sacudido por uma tosse violenta, ele limpa as profundezas da garganta e sai para cuspir num pequeno pátio, ao lado do jumento. Ele sofre de pneumonia, mas ele não está sendo tratado.

Na aldeia, a saúde pública desmoronou de vez. Na última vez que ele viu um médico, há um ano, este fora obrigado a partir em expedição para Datong, a principal cidade vizinha, ou seja, um outro mundo, bastante hostil, pouco acolhedor para os camponeses com as suas maneiras desajeitadas.

No hospital, as tarifas eram proibitivas e os médicos arrogantes. "Os médicos são bem mais antipáticos do que no passado", comenta o idoso, amargo. "Muita gente já morreu porque eles se recusaram a interná-los".

Então, diante de tantas dificuldades, tantas despesas e tanto desprezo, o velho Deng prefere permanecer na aldeia, lutando contra este mal que lhe retorce o rosto.

A principal fraqueza da China está exatamente nisso, nesta explosão, neste rasgo, neste aumento avassalador das desigualdades que vem acompanhado pelo reaparecimento das identidades de classe. Li Qinfu, Zhu Pei, Ge Zunmin e Deng Haiyan...

Todos eles ilustram, cada um da sua maneira, esta fragmentação do espaço social chinês que, no mesmo momento em que ela libertou uma jovem elite dinâmica, mergulha também camadas inteiras do país na precariedade.

A China, oficialmente "socialista", é hoje um dos países do mundo onde existem as maiores desigualdades, a tal ponto que alguns analistas a comparam com a América Latina.

Enquanto o país enriqueceu globalmente, as diferenças sociais, por sua vez, aumentaram, expondo certas regiões pobres a surtos de revolta e de contestação que apresentam o risco de um dia constituir um perigo político de marca maior para o regime.

Os números são eloqüentes. Durante os anos 80, a diferença entre a renda urbana e a renda rural era de 1,8/1. Ela passou para 3/1 em 2003, segundo as estatísticas oficiais. Na realidade, ela se aproxima muito mais de 5/1, e até mesmo de 6/1, considerando-se as múltiplas taxas impostas aos camponeses.

O mais preocupante para Pequim é que o enriquecimento global não permite mais fazer recuar a pobreza. Neste contexto, o ano de 2003 foi marcado por uma reviravolta.

Pela primeira vez em duas décadas, o número de pobres (definidos oficialmente por uma renda anual inferior a US$ 77 - R$ 186,03) aumentou, passando de 28,2 milhões para 30 milhões de pessoas. O mito de uma China que supostamente teria conseguido deter a pobreza já era.

Esta reversão de tendência pode ser explicada em parte pela crise da economia rural, pela contração das superfícies aráveis e pelas expropriações dos camponeses das suas terras, entregues à especulação imobiliária.

Entre 1987 e 2001, 34 milhões de agricultores perderam assim a sua terra, enquanto no mesmo momento, os serviços públicos, de saúde e de educação, desmoronavam uma vez que o Estado foi cancelando todos os seus compromissos.

Nestas condições, o êxodo rumo às cidades vai se acelerando inevitavelmente. Calcula-se que estes migrantes do interior formem uma população de mais de 100 milhões de pessoas.

Embora o dinheiro que eles enviam para a aldeia permita à sua família sobreviver, estes "mingongs", como são chamados, descobrem um meio urbano muito pouco acolhedor e cada vez mais marcado pelas desigualdades.

Segundo as estatísticas oficiais, as famílias as mais ricas (8,6%) das cidades monopolizam 60,4% do capital financeiro, ou seja, uma disparidade superior àquela que registrada nos Estados Unidos e na América Latina.

Enquanto o governo não tiver implantado uma política social de redistribuição digna deste nome --o seguro de saúde permanece o privilégio de apenas 76 milhões de empregados urbanos, ou seja, 5,8% da população--, a urbanização acelerada concebida como uma solução para remediar ao mal-estar rural continuará gerando tantos problemas ou mais do que aqueles que ela for solucionando.

Os analistas chineses costumam comparar a estrutura social das cidades a uma estrutura em forma de pagode. Sobre o teto, os altos salários; na base, a baixa renda. E, entre os dois, uma torre que vai se estendendo cada dia um pouco mais. Se a China de amanhã continuar a se parecer com uma pagode, ela estará muito vulnerável aos abalos sísmicos.

Tradução: Jean-Yves de Neufville



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