China paga seu "milagre"
econômico com a desagregação
da sua sociedade
Enquanto o país enriquece, diferenças
entre suas classes sociais aprofundam-se;
a situação poderá
levar a um desfecho explosiva.
Frédéric
Bobin
Correspondente na China
Pinghu, província do Zhejiang,
dezembro de 2002.
O carro de luxo atravessa em velocidade
a paisagem plana dos confins rurais de
Xangai, onde aparecem aqui e lá
alguns sobrados, construídos por
camponeses que enriqueceram. Ao lado do
motorista, Xiao Mei, uma jovem e linda
mulher coberta de jóias Cartier,
conta mil maravilhas sobre a mais recente
operação na bolsa do seu
patrão, que, segundo ela, é
um empreiteiro dos novos tempos.
De repente, o horizonte é cortado
por uma maciça incongruência
grego-gótica. Uma imitação
do Capitólio que surge nos confins
rurais de Xangai, isso é um choque
e tanto!
À medida que o carro vai se aproximando,
aparece um imponente domo bulboso com
elementos de madrepérola, que cobre
um peristilo de colunas corintianas, flanqueado
por uma réplica, só que
desta vez, da Casa Branca. O conjunto
arquitetônico é cercado por
gramados e piscinas. Nós adentramos
no império de Li Qinfu.
Com os seus "castelos" e sua
Lamborghini roxa, o jovem bilionário
de 39 anos assume sem complexo seus caprichos.
Ao ver o seu rosto de colegial um pouco
rechonchudo, é difícil imaginar
a potência que ele concentra. Uma
figura de destaque da nova casta dos empreendedores
privados, ele resume duas décadas
de reforma econômica pós-maoísta.
Assim como outros desses conquistadores
da China emergente, ele iniciou a sua
carreira com quase nada. Um aluno fracassado
no seu vilarejo rural, ele se inicia aos
negócios vendendo lesmas do mar
nas feiras.
O seu destino muda de vez no dia em que
ele compra por um preço irrisório
uma oficina têxtil à beira
da falência. Mais tarde, um empresário
japonês, um especialista na fabricação
de toalhas de banho, descobre o armazém
e, em busca de parceiros locais, lhe propõe
uma aliança.
Assim nasceu a Shanghaï Matsuoka,
uma exportadora arrojada de uniformes
de aeromoças e de blusas de enfermeiros.
O sucesso desses produtos exportados é
fulgurante. É preciso ver a fábrica
que fica ao lado da "Casa Branca"
para entender.
São diversas oficinas onde trabalha
um formigueiro de operárias em
uniforme, docilmente debruçadas
sobre as suas máquinas, repetindo
ao infinito os mesmos gestos mecânicos.
Afixados na parede, vários relógios
ritmam as cadências infernais, enquanto
as fiscais passam pelas fileiras e chacoalham
as retardatárias. É impossível
não lembrar das fiações
de Manchester durante a era vitoriana.
Êxodo rural, revolução
industrial. As analogias possíveis
são inúmeras, exceto que
um comitê do Partido comunista ocupa
aqui um espaço privilegiado. Foi
o próprio Li Qinfu que introduziu
os quadros e os militantes do partido
na sua casa.
No momento em que o Partido celebra a
glória dos patrões do setor
privado, a ponto de lhes atribuir a medalha
do trabalho todos os anos no dia 1º
de maio, por que haveria de desconfiar
deles? "O comitê do Partido
nos ajuda a avaliar o desempenho dos empregados",
comemora o patrão. Um aficionado
dos carros da Lamborghini que converte
um comitê do Partido num sindicato
caseiro sob o domo de um Capitólio
duplicado: sejam bem vindos à China.
Pequim, setembro de 2004
Os seus cabelos compridos cobrem o seu
pescoço; ele se expressa num inglês
perfeito. Aos 42 anos, Zhu Pei é
o protótipo da nova geração
dos empreendedores e "tomadores de
decisões" que, depois de dar
algumas voltas pelas universidades ocidentais,
acede agora às responsabilidades
na China da reforma econômica.
Zhu Pei é um arquiteto. Mas ele
não é um arquiteto qualquer.
Ele é o primeiro chinês a
ter conquistado um dos projetos do futuro
conjunto olímpico que será
a sede em Pequim dos Jogos Olímpicos
de 2008.
No seu escritório de teto elevado,
Zhu Pei digita no seu computador e aciona
o comando do projetor de slides. Um monólito
surge no telão, com a aparência
de um mil-folhas com a borda virada para
baixo, cortado por estrias luminosas que
lembram a nervura de um chip eletrônico.
É a maquete do Beijing Digital,
o futuro centro de informática
da cidade olímpica. Zhu Pei concebeu-o
como sendo o casamento da arquitetura
com o mundo digital, na confluência
entre macro e micro.
Zhu Pei reivindica alto e bom som a sua
qualidade de homem de síntese.
Em 1989, quando ainda é um estudante,
ele desfila sobre o pavimento da Praça
Tiananmen. Enojado com a repressão,
ele se exila em Berkeley, nos Estados
Unidos.
Após dez anos passados a acumular
experiências neste país,
ele sente muita saudade da China. Embora
a tão esperada revolução
democrática não tivesse
acontecido, o seu país é
então o teatro de uma revolução
urbana de tirar o fôlego e o arquiteto
Zhu Pei não consegue mais resistir
à sedução do retorno
ao país. "Já não
era sem tempo de voltar", comenta.
Ele descobre então um país
em pleno processo de metamorfose. Os oficiais
com os quais ele negocia há muito
não são mais aqueles idosos
dogmáticos. "Eles estão
cada vez mais abertos para o mundo",
diz.
"Muitos se parecem bastante comigo:
eles estudaram no exterior". Embora
esta nova China se mostre cada vez mais
hospitaleira para pessoas da sua geração,
Zhu Pei conserva, contudo, fortes laços
com os Estados Unidos, onde permaneceu
a sua mulher. Ela adquiriu a cidadania
americana. Nunca se sabe...
Shenyang, província do
Liaoning, outubro de 1998
"Não há ninguém
para cuidar de nós". Ge Zunmin,
70, articula penosamente a sua queixa
em meio a um gemido de esgotamento. Ele
está sentado num banquinho e aproveita
o sol da tarde à beira de uma alameda
de terra enquadrada por muros de tijolos
enegrecidos pelo enxofre.
Nos arredores, fábricas de aço
e de cimento a perder de vista emitem
vapores amarelados que dominam no horizonte.
Ge Zunmin, o olhar perdido no nada, finge
que ele não está escutando
o choque surdo do pilão contra
as divisórias de gesso dos casebres
que estão sendo derrubados.
Há quanto tempo que ele está
assistindo sem vê-la à inexorável
agonia da sua periferia operária
de Shenyang, o berço da indústria
pesada da Manchúria?
Neste fim de tarde, o frio começa
a se fazer sentir no subúrbio.
O idoso começa a tossir, levanta-se
do seu banquinho e, andando com dificuldade,
entra na sua casa: uma única sala
com o chão de cimento e as paredes
impregnadas de umidade, iluminada por
uma lâmpada de néon lívida.
Quem "cuida", portanto, do
velho Ge? No passado, quando ele era um
operário da construção,
ele chegou a ser o "homem de ferro"
de Shenyang. Já faz dois meses
que ele não recebe mais a sua aposentadoria.
Então, é preciso recorrer
ao modesto pé-de-meia para sobreviver.
A alimentação cotidiana
limita-se a bolachas de pão cozidas
no vapor, acompanhadas por folhas de repolho.
O prato de carne é um privilégio
que é saboreado uma vez por mês
apenas, só nas ocasiões
importantes.
Palavra de Ge Zunmin: "Do tempo
de Mao [Tse Tung], uma pessoa podia alimentar
oito membros da família. Hoje,
eu não consigo nem sequer me alimentar
sozinho".
O velho Ge está muito irritado.
É uma raiva murmurada, sussurrada,
uma vez que ele não tem força
sequer para levantar a voz. Caso ele ceder
à tentação de falar
em tom mais alto, os seus pulmões
se inflamam.
Então, ele diz baixinho: "Eu
passei a vida toda construindo imóveis
para os outros, e agora eu não
tenho sequer condições para
morar numa casa normal". Ele sussurra
também: "Hoje, todo mundo
mente. O povo não acredita em mais
nada".
Durante o festim mensal com um prato
de carne, o seu filho, um suboficial do
Exército Popular de Liberação
(EPL), lhe disse que "até
mesmo o exército se tornou corrupto".
Dedicado, o jovem oficial deveria ter
sido promovido, mas foi um medíocre
que tomou o seu lugar, uma vez que ele
devia ter conseguido "fornecer alguma
propina aos seus superiores". Com
certeza, "todo mundo mente hoje em
dia".
Yuanjiayao, província
do Shanxi, maio de 2003
Em primeiro lugar, Yuanjiayao é,
sobretudo, um flanco. Uma parede de argila
perfurada por abrigos. A aldeia é
um vilarejo troglodita ordinário,
banal, igual a centenas de outras aldeias
encostadas nos barrancos que dilaceram
o planalto rico em calcário estratificado
do norte do Shanxi. O país é
seco, árido e coberto por uma fina
nuvem amarelada quando um sopra vento
potente proveniente do deserto de Gobi.
Trajando um pulôver roxo e usando
um fino bigode em espiga, Deng Haiyan
penetra com agilidade na sua caverna,
uma sala arqueada, estreita, e senta-se
sobre o "kang", uma cama dura
aquecida por dentro por uma brasa de carvão.
O camponês pede desculpas por não
poder servir outra coisa que água
quente açucarada. O chá
está caro demais. A aldeia, muito
pobre, sobrevive apenas com algumas pequenas
plantações de milho. O êxodo
rumo à cidade constitui na maioria
dos casos a única salvação.
Deng Haiyan migrou no passado para um
local ao lado de uma mina de carvão
do Shanxi. Ele foi um "cara preta",
que labutava nas galerias subterrâneas,
até o dia em que uma rocha o feriu
na cabeça. Foi assim que ele teve
de retornar a Yuanjiayao para cultivar
o seu magro milho.
Hoje, ele vive sozinho com o seu pai,
um setuagenário cujo rosto tem
a aparência de um pergaminho, e
que traja um boné de lona cinza.
O patriarca está doente.
Em intervalos regulares, sacudido por
uma tosse violenta, ele limpa as profundezas
da garganta e sai para cuspir num pequeno
pátio, ao lado do jumento. Ele
sofre de pneumonia, mas ele não
está sendo tratado.
Na aldeia, a saúde pública
desmoronou de vez. Na última vez
que ele viu um médico, há
um ano, este fora obrigado a partir em
expedição para Datong, a
principal cidade vizinha, ou seja, um
outro mundo, bastante hostil, pouco acolhedor
para os camponeses com as suas maneiras
desajeitadas.
No hospital, as tarifas eram proibitivas
e os médicos arrogantes. "Os
médicos são bem mais antipáticos
do que no passado", comenta o idoso,
amargo. "Muita gente já morreu
porque eles se recusaram a interná-los".
Então, diante de tantas dificuldades,
tantas despesas e tanto desprezo, o velho
Deng prefere permanecer na aldeia, lutando
contra este mal que lhe retorce o rosto.
A principal fraqueza da China está
exatamente nisso, nesta explosão,
neste rasgo, neste aumento avassalador
das desigualdades que vem acompanhado
pelo reaparecimento das identidades de
classe. Li Qinfu, Zhu Pei, Ge Zunmin e
Deng Haiyan...
Todos eles ilustram, cada um da sua maneira,
esta fragmentação do espaço
social chinês que, no mesmo momento
em que ela libertou uma jovem elite dinâmica,
mergulha também camadas inteiras
do país na precariedade.
A China, oficialmente "socialista",
é hoje um dos países do
mundo onde existem as maiores desigualdades,
a tal ponto que alguns analistas a comparam
com a América Latina.
Enquanto o país enriqueceu globalmente,
as diferenças sociais, por sua
vez, aumentaram, expondo certas regiões
pobres a surtos de revolta e de contestação
que apresentam o risco de um dia constituir
um perigo político de marca maior
para o regime.
Os números são eloqüentes.
Durante os anos 80, a diferença
entre a renda urbana e a renda rural era
de 1,8/1. Ela passou para 3/1 em 2003,
segundo as estatísticas oficiais.
Na realidade, ela se aproxima muito mais
de 5/1, e até mesmo de 6/1, considerando-se
as múltiplas taxas impostas aos
camponeses.
O mais preocupante para Pequim é
que o enriquecimento global não
permite mais fazer recuar a pobreza. Neste
contexto, o ano de 2003 foi marcado por
uma reviravolta.
Pela primeira vez em duas décadas,
o número de pobres (definidos oficialmente
por uma renda anual inferior a US$ 77
- R$ 186,03) aumentou, passando de 28,2
milhões para 30 milhões
de pessoas. O mito de uma China que supostamente
teria conseguido deter a pobreza já
era.
Esta reversão de tendência
pode ser explicada em parte pela crise
da economia rural, pela contração
das superfícies aráveis
e pelas expropriações dos
camponeses das suas terras, entregues
à especulação imobiliária.
Entre 1987 e 2001, 34 milhões
de agricultores perderam assim a sua terra,
enquanto no mesmo momento, os serviços
públicos, de saúde e de
educação, desmoronavam uma
vez que o Estado foi cancelando todos
os seus compromissos.
Nestas condições, o êxodo
rumo às cidades vai se acelerando
inevitavelmente. Calcula-se que estes
migrantes do interior formem uma população
de mais de 100 milhões de pessoas.
Embora o dinheiro que eles enviam para
a aldeia permita à sua família
sobreviver, estes "mingongs",
como são chamados, descobrem um
meio urbano muito pouco acolhedor e cada
vez mais marcado pelas desigualdades.
Segundo as estatísticas oficiais,
as famílias as mais ricas (8,6%)
das cidades monopolizam 60,4% do capital
financeiro, ou seja, uma disparidade superior
àquela que registrada nos Estados
Unidos e na América Latina.
Enquanto o governo não tiver implantado
uma política social de redistribuição
digna deste nome --o seguro de saúde
permanece o privilégio de apenas
76 milhões de empregados urbanos,
ou seja, 5,8% da população--,
a urbanização acelerada
concebida como uma solução
para remediar ao mal-estar rural continuará
gerando tantos problemas ou mais do que
aqueles que ela for solucionando.
Os analistas chineses costumam comparar
a estrutura social das cidades a uma estrutura
em forma de pagode. Sobre o teto, os altos
salários; na base, a baixa renda.
E, entre os dois, uma torre que vai se
estendendo cada dia um pouco mais. Se
a China de amanhã continuar a se
parecer com uma pagode, ela estará
muito vulnerável aos abalos sísmicos.
Tradução:
Jean-Yves de Neufville