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Uma das
alavancas do futuro do Brasil está na China,
a mais formidável oportunidade de negócios
surgida nas últimas décadas no cenário
mundial. Enquanto as demais economias enfrentam
retração, a China se consolida como
uma indústria de 1,3 bilhão de pessoas
que fabricam, consomem e exportam dia e noite.
O único país que ainda mantém
ritmo acelerado de crescimento conseguiu elevar
seu PIB para US$ 1,2 trilhão no ano passado
e anunciou crescimento de 8% somente neste primeiro
semestre, apesar da Guerra do Iraque. No Brasil,
o gigante asiático saiu da 12ª posição
no mercado das exportações para
a segunda, ultrapassando parceiros tradicionais
como Argentina, Holanda e Alemanha. E mais: nos
próximos cinco anos, ela será a
maior compradora de produtos brasileiros, passando
os EUA.
Empresas de todo o mundo sentem o impacto da China,
mesmo que não operem nem mantenham negócios
no país. Portanto temos a oportunidade
de aproveitar a investida chinesa, de nos tornarmos
seus parceiros com investimento de capital e joint
ventures nos dois países.
Os chineses não querem ser apenas compradores
de produtos brasileiros: desejam participar do
sistema produtivo para garantir qualidade, fornecimento
de longo prazo e preços competitivos. Eles
participam como sócios na criação
de rebanhos, nos frigoríficos e nas exportações,
assim como na produção da soja e
de seus derivados (óleo e farelo), açúcar,
álcool, softwares, eletrônicos etc.
O mesmo se aplica ao Brasil na China, com investimentos
em parcerias tais como aviões, soja, software,
veículos, máquinas.
O país que se destaca no cenário
econômico mundial tem 5.000 anos de história.
Mas, nas últimas três décadas,
passou por mudanças radicais na política,
crise financeira em 1997 e reformas econômicas
cada vez mais profundas para satisfazer os requisitos
da Organização Mundial do Comércio.
Desde 1978, o crescimento anual do PIB foi de
9%, em média, o que implica um salto cumulativo
de 700%. No comércio exterior, a expansão
anual foi de 15% -ou 2.700% no total.
No ano passado, a China ultrapassou pela primeira
vez os EUA em investimento estrangeiro direto
e se tornou uma poderosa combinação
de mão-de-obra disciplinada e barata com
grande contingente de pessoal técnico e
de incentivos fiscais para atrair investimentos;
e, ainda, uma infra-estrutura capaz de realizar
operações eficientes de produção
e exportação.
Com a abertura da economia chinesa, quem ganha
são as multinacionais. Primeiro, porque
as empresas 100% chinesas -salvo exceções
como a Konka (televisores) e a Huawei (telecomunicações)
-ainda não têm capacidade para competir
fora do país em outra base que não
a mão-de-obra de baixo custo. Segundo,
as empresas chinesas ainda têm uma gestão
peculiar, que valoriza mais o tato político
do que as modernas técnicas de gestão.
Terceiro, a China sempre recorreu a barreiras
tarifárias para proteger a indústria
nacional e exigia do investidor a formação
de joint ventures para entrar no país.
Mas, com a admissão na OMC, as barreiras
tarifárias serão reduzidas, as exigências
de exportação eliminadas e poucos
setores ainda exigirão joint ventures.
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Empresas
de todo o mundo sentem o impacto da China,
mesmo que não operem nem mantenham
negócios no país |
O desafio das multinacionais seria transferir
para a China seu know-how de gestão e reduzir
custos por contratar mão-de-obra barata,
a ponto de gerar vantagem competitiva.
Às empresas que buscam uma fatia do bolo
chinês, lembro que há riscos, como
o atraso na implantação dos requisitos
da OMC; porém nós, brasileiros,
temos uma grande vantagem sobre os EUA e os países
europeus. Entendemos bem como funciona a negociação
chinesa e o ritual do "guanxi" -a prática
de cultivar relações pessoais, muito
valorizada na Ásia (e também na
América Latina). Em território chinês,
deve-se apreciar o relacionamento pessoal construído
ao longo do tempo, mesmo nos assuntos econômicos
e políticos comuns.
Diante do crescimento econômico da China
e do seu avanço no mercado mundial, o Brasil
não pode deixar de enxergar essas oportunidades.
Sairão na frente não só empresas
que aproveitarem a China como fonte de produtos
de baixo custo, mas também as que vêem
nesse país a oportunidade de exportar -e,
nesse campo, nós nos destacamos não
só pelos produtos básicos (café,
suco de laranja, álcool, carnes, soja),
mas também pelos manufaturados- e, finalmente,
aquelas que pretendem lá se instalar para
abastecer o próprio mercado chinês.
Muitas empresas nacionais já iniciaram
esse caminho. Nos dias 4 e 5 de novembro, uma
delegação brasileira aportará
em Xangai e Pequim para reunir, na mesma mesa,
empresários brasileiros e chineses. Esses
encontros foram agendados pelo Banco da China,
pelo Banco de Desenvolvimento da China e pelo
Banco Santos. A intenção é
estreitar ainda mais as relações
entre os dois países, para gerar negociações
futuras.
As reuniões vão anteceder a 22ª
Cúpula de Negócios da China, evento
do Fórum Econômico Mundial, que acontece
em 6 e 7 de novembro, e no qual o Brasil foi convidado
a apresentar um painel inteiro. Durante essa cúpula,
o presidente Manoel Cintra Neto anunciará
a abertura do escritório da BM&F em
Xangai e o ministro Roberto Rodrigues discutirá
agricultura, suprimento alimentar e diminuição
das distâncias entre Brasil e China, em
apresentação organizada pela BrasilConnects.
Essa importante participação brasileira
na cúpula chinesa mostra que a China também
nos reconhece como forte parceiro comercial e
de grande potencial de expansão no agronegócio.
| Edemar
Cid Ferreira,
60, economista, é presidente do Banco
Santos e do Conselho da BrasilConnects. |
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(28/11/2003 14:54:50)
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