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 SPRING FESTIVAL

Por Daniel
   
09 de Janeiro de 2004  

Ni men hao!

Aqui vão notícias sobre o Spring Festival - o feriado que não terminou. Até hoje tem comércio que não voltou. Tem muitos detalhes interessantes, desde os programas de TV comemorativos (clips com musica de varias regiões da China) ate' a febre de fogos de artifício (que eles adoram - afinal foram eles que os inventaram) e comemorações em família. Sobre os clips, são mostradas musicas cantonesas, da Manchuria, da Inner Mongólia, Xinjiang, Jiangsu etc., mas chamou-nos atenção um sobre Macau. Nesse clip dizia-se algo assim: "Mae, sabes que meu nome não e' Macau, e' Aomen. Fiquei 300 anos longe, mas não te esqueci nem nos sonhos. Capturaram só meu corpo, e agora estou de volta." Havia também um clip sobre chineses no exterior, sendo as comunidades chinesas no exterior mostradas como mais uma região da China, com suas danças e culturas próprias. E que a identidade chinesa não se desfaz ("mesmo que eu more ou tenha nascido em terra estranha meu coração e' ainda chinês").

Outra coqueluche do Spring Festival são as Temple Fairs (ou feiras nos templos) - onde se pode ir aos templos rezar, reunir a família, ver performances e fazer muitas compras de artesanato. No primeiro dia do ano do macaco fomos visitar a feira do Fuzimiao. As feiras ficam nas ruas próximas. A região estava muito lotada e forrada de lanternas comemorativas. Vários produtos comemorativos. Dentre as performances, um homem fazendo pintura chinesa muito rapidamente. Com os movimentos das mãos e as cores certas, surgem figuras de animais, flores, barcos (junkos) - impressionante. Alem disso, pessoas fazendo artesanato com um xarope doce, que se endurece ao entrar em contato com o ar frio - dai surgindo pirulitos em forma de dragão, macaco etc.

Ha também a arte dos recortes de papel. Enfim, muita coisa! No sábado, dia 24, fomos passar o Spring Festival "em família". A prefeitura de Nanjing organizou esse evento, de estrangeiros passarem um dia na casa de uma família. Realmente foi muito interessante. Gao Gun, o nosso anfitrião e seu amigo Bill (que apesar do nome e' também chinês) vieram nos buscar em casa. Pegamos um táxi, passando pelo oeste de Nanjing, vendo a bela região do Nanjing Museum (prédios antigos iluminados). Chegamos, um prédio baixo (como vários da China) sem elevador. O apartamento tinha uns 55 metros quadrados, muito limpo e aconchegante. Tinham de tudo (TV VCD, computador etc) - mas só' nos chamou a atenção que dentro do apartamento era extremamente frio. Naquele dia estava seis negativos e eles nem ligaram o ar condicionado que eles tinham.

Fomos recebidos pelo pai do Gao Gun e sua tia (irmã do pai). Logo depois chegou um amigo do Gao Gun. Muito engraçado que na casa tinha um monte de pantufas. Cada um que chega na casa tira o sapato e poe a pantufa. O pai do Gao Gun e' uma pessoa muito interessante. Tem 57 anos, fez faculdade com algo relacionado à fotografia. Hoje fotografa crianças em estúdio. O filho fez faculdade em Harbin, na Manchuria, e hoje sua profissão e' "trabalhar com ar condicionado". Não sei, acho que ele cuida de manutenção ou técnica, se entendi bem. A mae e' um mistério. Não ha presença dela nem no álbum de família que vimos.

Ficamos um tempão aprendendo varias coisas. Explicaram-nos xadrez chinês. Ha muitas regras diferentes, mas o que chamou a atenção e' não haver rainha ou nenhuma peca feminina. "Mulher não vai ao campo de batalha." Outra curiosidade e' haver um "rio" no meio do tabuleiro. O cavalo também existe aqui, e faz um movimento semelhante. Por razoes obvias, não ha o bispo (e sim ministros do líder). Quem sabe um dia conseguiremos jogar direito!

Na hora do almoço, como todo bom almoço chinês - um monte de pratos diferentes! Peixe, frango gelado, brócolis, vagem, ovo de 1000 anos, bofe de búfalo, sopa de frango, sopa doce de milho com uma massa branca, arroz, porco com tofu, camarão do norte do pais. Comemos bastante. Experimentamos de tudo. Eles cozinham muito bem. Para quem não sabe, ovo de 1000 anos e' um ovo que eles enterram por um tempo (apesar do nome, e' por apenas seis meses). Quando eles desenterram, a clara e' verde e a gema preta.

O amigo biólogo do Gao Gun sabe um monte de coisas sobre o Brasil. Caímos para trás quando ele disse que no Brasil existem 200.000.000 de técnicos da seleção. Sabe da Amazônia, do Rio de Janeiro (a cidade tem nome chinês), todos eles conhecem o Palmeiras, o Corinthians, o São Paulo.

Sobre questões contemporâneas, eles tem uma visão de que a China não ta crescendo, esta' em crise. Os garotos acreditam que a vida hoje e' melhor que antes, pois eles podem consumir mais. O pai pouco se pronunciou - ate' que falou: "Não importa se e' socialismo ou capitalismo - tem que se pensar no bem estar do povo."

Comentaram não gostar de japoneses por causa de vários incidentes históricos entre os dois paises. O principal, o massacre de 1931. Na China ocupada pelo Japão, soldados mataram grande numero de civis - e o pior e' que os japoneses não aprendem isso na escola, segundo eles.

Demoramos a sair da mesa: na China e' o convidado que pede para todos mudarem de sala. Não sabíamos disso, então conversamos bastante na mesa, ate' que eles perguntaram.

Conversamos, tomamos chá, cantamos no karaokê a musica "Tian mi mi" (única que sabíamos). Eles cantaram um monte de musicas russas em chinês (que não sabíamos ser tao populares aqui). O pai canta muito bem. Ele também tocou para a gente "er hu" (violino de 2 cordas), instrumento tradicional chinês.

Depois veio o pessoal da Nanjing TV nos entrevistar. Foi muito interessante. O pai do Gao Gun fez caligrafia chinesa no pincel (shufaa), e TV mostrou. Ele esfrega na água um bastão sólido que se liquefaz. Dai a tinta surge. O modo de segurar o pincel e' importante. Filmaram a gente fazendo shufaa também. Escrevemos coisas como os nossos nomes, Brasil, China (infantil, ainda mais se comparado com os deles).

Depois ficamos todos eu e a Erika, da família do Gao Gun, o Bill, e toda a equipe de TV enrolando manualmente jiaozi (e' um pastelzinho chinês parecido com ravioli). Primeiro, bater a massa (farinha e água). Separam-se os pasteizinhos. Depois, enfiar carne de porco no recheio. Depois, colocar na água fervendo. Ficamos fazendo isso durante 1:30 hora. O que mais impressionou foi a equipe de TV ficar todo esse tempo com a gente, e ainda fizeram um monte de pasteizinhos. Todos eles sabiam. Como comemos! Dizem que quanto mais reaproveitada a água, melhor fica o Jiaozi.

Depois entrevistaram a gente. Fizeram umas perguntas meio ruins de responder, tipo "Compare educação entre Brasil e China". Mas tudo correu bem, acho. Desculpem o longo texto! E' que Spring Festival e' muito rico para nos e nesses dias aprendemos muito. Adoramos a experiência. Ate' que enfim, depois de 5 meses, foi a primeira casa chinesa que visitamos!

Zaijian,

Daniel.





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