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 Entenda os chineses

   
29 de dezembro de 2003  

   O guanxi é uma regra básica. Trata-se de uma “moeda de
troca” baseada na boa vontade das partes. É uma espécie de “network”, ou seja, uma rede de relacionamentos em que um vai abrindo portas para o outro e a cada favor prestado corresponde uma obrigação que também será cobrada mais tarde;

   As mulheres estão plenamente emancipadas e , diferentemente do que se vê no Japão, suas opiniões são levadas em conta. Muitas ocupam cargos de decisão;

   A busca da harmonia é uma constante; ninguém grita, humilha,
maltrata ou perde as estribeiras “a la italiana”. Não são bem vistas gesticulações, usos de metáforas e situações que pressionem o interlocutor a responder apenas sim ou não;

   Os chineses têm orgulho nacional incomum e grande amor pelo seu país. Se eles reconhecem deficiências, você não deve corroborá-las falando mal da China. Procure sempre falar do lado bom;

   Eles são muito supersticiosos (numerologia, feng shui etc). Só
um chinês pode facilitar a tarefa de indicar, por exemplo,
por que certa data será considerada inadequada por um patrício.

   Todos adoram uma celebração em torno de uma boa mesa. Não deve haver preocupação em dizer coisas importantes durante
um jantar.

   Chineses são muito pragmáticos. Apesar de obedecerem a um ritmo considerado lento pelos ocidentais, eles agem realmente como se o menor caminho entre dois pontos fosse uma reta.

Revista Amanhã (agosto/2002)



De olhos bem abertos

Além do aspecto mercantil pura e simplesmente, o mundo observa com expectativa as conseqüências geopo-líticas da abertura econômica de um país de um bilhão e trezentos milhões de habitantes: “Foi um ponto de ruptura. A OMC passa a ter um caráter universal”, declara Ricardo Seitenfus, doutor em relações internacionais pela Universidade de Genebra e especialista em política externa brasileira. De fato, o ingresso na OMC tem dois lados, ambos positivos. Um é tornar as relações comerciais efetivamente multilaterais. Ou seja, a China tem grande poder de influência para fazer a balança das decisões pender para o lado de economias emergentes, contrapondo-se a atos arbitrários e políticas protecionistas de potências econômicas como os EUA e a União Européia. O outro lado da história é que, se a China pode ajudar a defender o fair trade no mundo, o mundo também terá mais condições de se defender da China, que despeja no mercado toneladas de produtos fabricados com mão-de-obra infantil ou salários baixíssimos e pirateados de toda espécie, além de quebrar patentes sem a menor cerimônia.

Apesar dos casos de sucesso entre empresas brasileiras com atuação no mercado chinês, há por aqui quem o veja com restrições. É o caso de Gilberto Machado, presidente da Digitel. Ele esteve em viagem de prospecção de negócios na Ásia, em maio deste ano, e voltou com uma má impressão. “O que se propõe lá é que a empresa brasileira entre com a tecnologia e o capital e os chineses fiquem encarregados da gestão”, conclui ele, que também não viu toda aquela efervescência que se fala de Shanghai, conhecida como “a Paris do Oriente”: “É um grande canteiro de obras. Se vêem shoppings, avenidas, ruas, mas tudo vazio”. Machado convenceu-se de que é vendida uma imagem de modernidade para o estrangeiro que não corresponde à realidade dos chineses. “O nativo vive em cortiços fortemente guardados por policiais e só anda de bicicleta”, afirma.

Machado não está sozinho no temor de levar gato por lebre quando se compra a imagem de crescimento da China. Os EUA estão céticos quanto ao comprometimento dos chineses com o livre comércio. Agências internacionais e economistas em todo o mundo também revisam para menos os números oficiais de crescimento chineses, por considerá-los pouco confiáveis. “Não é uma sociedade organizada segundo os padrões ocidentais. Mas nós não temos como dar lições aos chineses em termos de transparência”, argumenta Seitenfus. Ele diz que realmente não há estudos acadêmicos independentes, mas com as regras claras que estão se estabelecendo é possível trabalhar. “A China é um desses países-baleia, que se movem com dificuldade mas têm um potencial extraordinário”, define. Apesar do otimismo, ele toca na ferida dos assuntos polêmicos. Para Seitenfus, negociar com a China não significa fechar os olhos para a ocupação do Tibete, a falta de liberdade e as transgressões aos direitos humanos. “É importante que o Brasil e o mundo não percam a preocupação de convencer os dirigentes chineses da necessidade de respeitar esses direitos”, diz.

Os especialistas também suspeitam que a morosidade da abertura econômica esteja ligada à mudança de liderança política, marcada para o segundo semestre deste ano, durante o congresso do Partido Comunista. As autoridades estariam esperando a posse de uma nova geração antes de promover as demissões em massa, conseqüência da implementação de novas regras.

Mesmo com dúvidas sobre a eficiência da China em atingir a economia de mercado, o potencial consumidor da China é inquestionável. Há uma classe média crescente e uma elite de ricos e até bilionários que busca padrões de consumo do Ocidente e tem um estilo de vida totalmente diferente do estereótipo do cidadão de olhos puxados de uniforme ou de chapéu de palha.

Motivos econômicos e políticos para os olhos do mundo se voltarem para a Ásia Central não faltam. Um deles é o surgimento de uma nova organização internacional. Antes conhecida como os 5 de Shanghai, e criada para eliminar conflitos nas fronteiras de Rússia, China e de ex-repúblicas soviéticas, a Organização para a Cooperação de Shanghai (OCS) está consolidada hoje como uma entidade jurídica reconhecida mundialmente. Mesmo que a presença dos Estados Unidos na área embaralhe a atuação da OCS na segurança da região, seus objetivos incluem desde combater terroristas e narcotraficantes até acordos de cooperação tecno-lógica e econômica. “É bom que haja uma organização regional de segurança na Ásia que se contraponha aos EUA. Isso insinua a possibilidade de um mundo multipolar”, explica o historiador José Miguel Martins, que desenvolve uma tese de mestrado sobre o tema. Para a economia, a OCS não traz resultados imediatos, mas o Brasil não deve ficar achando que não tem nada a ver com o assunto: “É preciso que se encare num sentido mais amplo”, ressalta ele, admitindo a possibilidade de que a organização se constitua como um verdadeiro bloco econômico. “Outros países agroexportadores são membros da organização e podem produzir o que nós produzimos. Devemos estreitar cada vez mais os laços, porque o que está em jogo é o risco de o Brasil perder nada menos do que a China como mercado”, afirma ele.




 Matérias Anteriores:

   Reflexões sobre o "bum" econômico da China (16 junho 2005)
   Semana da Cultura e do Desenvolvimento das Mulheres da China e do Brasil
   Os nomes, os sobrenomes e as formas de tratamentos chineses
   Spring Festival
   Uma abordagem cultural às relações comerciais entre Brasil e China  -  Parte 3
   A tradição do ANO NOVO CHINÊS
   Entenda os chineses
   Uma abordagem cultural às relações comerciais entre Brasil e China  -  Parte 2
   Uma abordagem cultural às relações comerciais entre Brasil e China  -  Parte 1
   O Negócio é a China
   Saiba o que é Guanxi



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