O
guanxi é uma regra básica. Trata-se
de uma “moeda de
troca” baseada na boa vontade das partes. É
uma espécie de “network”, ou seja,
uma rede de relacionamentos em que um vai abrindo portas
para o outro e a cada favor prestado corresponde uma
obrigação que também será
cobrada mais tarde;
As
mulheres estão plenamente emancipadas
e , diferentemente do que se vê no Japão,
suas opiniões são levadas em conta. Muitas
ocupam cargos de decisão;
A
busca da harmonia é uma constante; ninguém
grita, humilha,
maltrata ou perde as estribeiras “a la italiana”.
Não são bem vistas gesticulações,
usos de metáforas e situações que
pressionem o interlocutor a responder apenas sim ou
não;
Os
chineses têm orgulho nacional incomum
e grande amor pelo seu país. Se eles reconhecem
deficiências, você não deve corroborá-las
falando mal da China. Procure sempre falar do lado bom;
Eles
são muito supersticiosos (numerologia,
feng shui etc). Só
um chinês pode facilitar a tarefa de indicar,
por exemplo,
por que certa data será considerada inadequada
por um patrício.
Todos
adoram uma celebração em torno
de uma boa mesa. Não deve haver preocupação
em dizer coisas importantes durante
um jantar.
Chineses
são muito pragmáticos. Apesar
de obedecerem a um ritmo considerado lento pelos ocidentais,
eles agem realmente como se o menor caminho entre dois
pontos fosse uma reta.
Revista Amanhã
(agosto/2002)
De olhos bem abertos
Além do aspecto mercantil pura e simplesmente,
o mundo observa com expectativa as conseqüências
geopo-líticas da abertura econômica de
um país de um bilhão e trezentos milhões
de habitantes: “Foi um ponto de ruptura. A OMC
passa a ter um caráter universal”, declara
Ricardo Seitenfus, doutor em relações
internacionais pela Universidade de Genebra e especialista
em política externa brasileira. De fato, o
ingresso na OMC tem dois lados, ambos positivos. Um
é tornar as relações comerciais
efetivamente multilaterais. Ou seja, a China tem grande
poder de influência para fazer a balança
das decisões pender para o lado de economias
emergentes, contrapondo-se a atos arbitrários
e políticas protecionistas de potências
econômicas como os EUA e a União Européia.
O outro lado da história é que, se a
China pode ajudar a defender o fair trade no mundo,
o mundo também terá mais condições
de se defender da China, que despeja no mercado toneladas
de produtos fabricados com mão-de-obra infantil
ou salários baixíssimos e pirateados
de toda espécie, além de quebrar patentes
sem a menor cerimônia.
Apesar dos casos de sucesso entre empresas brasileiras
com atuação no mercado chinês,
há por aqui quem o veja com restrições.
É o caso de Gilberto Machado, presidente da
Digitel. Ele esteve em viagem de prospecção
de negócios na Ásia, em maio deste ano,
e voltou com uma má impressão. “O
que se propõe lá é que a empresa
brasileira entre com a tecnologia e o capital e os
chineses fiquem encarregados da gestão”,
conclui ele, que também não viu toda
aquela efervescência que se fala de Shanghai,
conhecida como “a Paris do Oriente”: “É
um grande canteiro de obras. Se vêem shoppings,
avenidas, ruas, mas tudo vazio”. Machado convenceu-se
de que é vendida uma imagem de modernidade
para o estrangeiro que não corresponde à
realidade dos chineses. “O nativo vive em cortiços
fortemente guardados por policiais e só anda
de bicicleta”, afirma.
Machado não está sozinho no temor de
levar gato por lebre quando se compra a imagem de
crescimento da China. Os EUA estão céticos
quanto ao comprometimento dos chineses com o livre
comércio. Agências internacionais e economistas
em todo o mundo também revisam para menos os
números oficiais de crescimento chineses, por
considerá-los pouco confiáveis. “Não
é uma sociedade organizada segundo os padrões
ocidentais. Mas nós não temos como dar
lições aos chineses em termos de transparência”,
argumenta Seitenfus. Ele diz que realmente não
há estudos acadêmicos independentes,
mas com as regras claras que estão se estabelecendo
é possível trabalhar. “A China
é um desses países-baleia, que se movem
com dificuldade mas têm um potencial extraordinário”,
define. Apesar do otimismo, ele toca na ferida dos
assuntos polêmicos. Para Seitenfus, negociar
com a China não significa fechar os olhos para
a ocupação do Tibete, a falta de liberdade
e as transgressões aos direitos humanos. “É
importante que o Brasil e o mundo não percam
a preocupação de convencer os dirigentes
chineses da necessidade de respeitar esses direitos”,
diz.
Os especialistas também suspeitam que a morosidade
da abertura econômica esteja ligada à
mudança de liderança política,
marcada para o segundo semestre deste ano, durante
o congresso do Partido Comunista. As autoridades estariam
esperando a posse de uma nova geração
antes de promover as demissões em massa, conseqüência
da implementação de novas regras.
Mesmo com dúvidas sobre a eficiência
da China em atingir a economia de mercado, o potencial
consumidor da China é inquestionável.
Há uma classe média crescente e uma
elite de ricos e até bilionários que
busca padrões de consumo do Ocidente e tem
um estilo de vida totalmente diferente do estereótipo
do cidadão de olhos puxados de uniforme ou
de chapéu de palha.
Motivos econômicos e políticos para
os olhos do mundo se voltarem para a Ásia Central
não faltam. Um deles é o surgimento
de uma nova organização internacional.
Antes conhecida como os 5 de Shanghai, e criada para
eliminar conflitos nas fronteiras de Rússia,
China e de ex-repúblicas soviéticas,
a Organização para a Cooperação
de Shanghai (OCS) está consolidada hoje como
uma entidade jurídica reconhecida mundialmente.
Mesmo que a presença dos Estados Unidos na
área embaralhe a atuação da OCS
na segurança da região, seus objetivos
incluem desde combater terroristas e narcotraficantes
até acordos de cooperação tecno-lógica
e econômica. “É bom que haja uma
organização regional de segurança
na Ásia que se contraponha aos EUA. Isso insinua
a possibilidade de um mundo multipolar”, explica
o historiador José Miguel Martins, que desenvolve
uma tese de mestrado sobre o tema. Para a economia,
a OCS não traz resultados imediatos, mas o
Brasil não deve ficar achando que não
tem nada a ver com o assunto: “É preciso
que se encare num sentido mais amplo”, ressalta
ele, admitindo a possibilidade de que a organização
se constitua como um verdadeiro bloco econômico.
“Outros países agroexportadores são
membros da organização e podem produzir
o que nós produzimos. Devemos estreitar cada
vez mais os laços, porque o que está
em jogo é o risco de o Brasil perder nada menos
do que a China como mercado”, afirma ele.